est-27102013

clippingAs ferramentas de guerra estão se transformando e, com elas, as perguntas feitas pelos estrategistas da ordem geopolítica mundial

Uma famosa frase atribuída a Mark Twain (que entretanto talvez seja apócrifa), usada frequentemente para orientar os leitores do mundo, diz: “A História não se repete, mas rima”.

Tendo em mente essas palavras, fiz uma pesquisa informal entrevistando os chefes do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, e perguntei a cada um deles qual é o período da história que, em sua opinião, oferece o melhor paralelo com os dias de hoje. Todos responderam a mesma coisa: o início dos anos 1990, quando os EUA reduziram drasticamente seus gastos militares após o colapso da União Soviética. Foram experiências dolorosas para eles (vale notar que a maioria dos chefes do EstadoMaior era então de oficiais que se encontravam no meio de suas carreiras), e, sob vários aspectos, assombraram os militares dez anos mais tarde, no Iraque e no Afeganistão, quando a força teve de ser ampliada e voltar a recuperar muitas competências e tecnologias que se atrofiaram numa espécie de pausa das compras do governo.

Entretanto, temo que estejam incorrendo num desses erros recorrentes na história: se procurarmos as rimas, frequentemente lembraremos das canções mais conhecidas, e não das músicas mais adequadas ao momento. Se há uma comparação histórica natural, não é o final da Guerra Fria, mas o período ao redor da 1ª Guerra Mundial. Entretanto, não estou me referindo aos EUA da época de Woodrow Wilson – hoje, os EUA assumiram um papel paralelo ao da Grã-Bretanha, a última grande potência, cujo predomínio então se aproximava do fim. Assim como a Grã-Bretanha daquela época, os EUA de hoje têm responsabilidades globais. E para os que afirmam que os EUA hoje são um reflexo pálido do que já foram no passado, vale lembrar o poderio representado pelas cerca de 800 bases em 156 países que os americanos têm e seu budget: a metade dos gastos militares mundiais. Como a Grã-Bretanha e suas guerras coloniais daquele período, as forças militares dos EUA estão igualmente envolvidas em uma série de conflitos ao redor do planeta, mas estes se encontram no patamar das chamadas “pequenas guerras”: incursões dolorosas e desgastantes, mas não ameaças à existência.

Há uma margem de manobra para uma avaliação estratégica. Parte dessa avaliação deve encarar o fato de que, de um ponto de vista geopolítico, os EUA são o que os estudiosos chamam de uma “potência de situação”. O termo contraria a imagem popular que os americanos têm de si como um agente positivo de mudança no mundo; mas a realidade é que os americanos gostam do formato e da estrutura da atual ordem geopolítica, que atende relativamente bem a seus interesses. Entretanto, assim como os britânicos no século passado, o desafio estratégico essencial para os EUA está em procurarem não mudar enquanto o mundo a seu redor está em rápida transformação.

Os paralelos vão desde o desafio de lidar com grandes potências em ascensão como a China (não por acaso, estudos sobre a ascensão da Alemanha imperial interessam profundamente aos círculos políticos chineses) à perda de vantagens competitivas em termos de poderio econômico e na inovação, e à possível perda do dólar como moeda de reserva mundial.

Tornou-se moda líderes afirmarem que uma das lições da última década de guerra é que “a tecnologia não é fundamental nas guerras antropocêntricas que combatemos”, como afirmou um general de quatro estrelas não faz muito tempo. Mas isso pressupõe uma definição de tecnologia como o que é exótico e impraticável. Parafraseando o músico Brian Eno ao citar o inventor Danny Hillis, tecnologia é o nome que damos hoje a coisas que ainda não entraram no uso cotidiano. Quando entram, deixamos de chamá-la tecnologia.

Seja uma pedra ou um drone, é tecnologia, uma ferramenta que aplicamos a uma tarefa. Entretanto, essas ferramentas estão se transformando. E, com isso, surgem as perguntas com as quais não se defrontavam os estrategistas que tentavam permanecer à frente da ordem geopolítica há quase um século. Assim como o submarino, o tanque e o avião provocaram destruições gigantescas dentro e fora dos campos de batalha nas décadas ao redor da 1ª Guerra Mundial, recentemente uma série de tecnologias do gênero da ficção científica tornou-se real e está subvertendo a maneira de guerrear.

No ano passado, ajudei a organizar e dirigir um projeto do Pentágono chamado NeXTech. Gerido pela empresa de consultoria internacional Noetic e envolvendo parceiros como a Escola de Guerra da Academia Naval, seu objetivo era descobrir se haveria a chance de surgirem elementos com a mesma capacidade de mudar o jogo na maneira de guerrear e na estratégia. O projeto envolveu tudo, desde entrevistas com os cientistas e os investidores que criarão e pagarão pelos instrumentos do futuro aos jogos de guerra com soldados e especialistas de diversos países, organizações e gerações. Incluiu até uma “ética do jogo da guerra”, não um paradoxo, mas um grupo único de filósofos, advogados, ativistas dos direitos humanos reunidos para discutir os novos e difíceis dilemas que tecnologias verdadeiramente revolucionárias podem gerar.

Os resultados são de alcance espantoso. A robótica autônoma – dos grandes drones que agora podem realizar as mais difíceis tarefas de pilotos humanos (como o X-47, que recentemente pousou com sucesso sobre um porta-aviões) até sistemas minúsculos do tamanho de insetos – não só está dispensando cada vez mais o homem do local da ação na guerra, mas também em termos cronológicos. Decisões fundamentais estão sendo tomadas por softwares desenvolvidos meses ou anos antes.

Acrescente-se a isso a dependência cada vez maior de um volume imenso de dados e da chamada “internet das coisas”. Em um mundo com bilhões de pessoas interconectadas, nossos computadores e as várias infraestruturas que eles acionam reunirão cada vez mais dados, se comunicarão sobre eles e tomarão decisões – sem serem instruídos pelo homem.

Imaginemos uma escada rolante que comece a funcionar antes que a gente pise no primeiro degrau, ou no carro que se comunique com a casa para que o termostato inteligente ligado à rede de energia possa mudar a temperatura quando estivermos a dez minutos de distância. Agora, imaginemos todo um campo de batalha operando dessa maneira: literalmente reagindo, mudando constantemente, mas também vulnerável a invasões de hackers.

Novas armas também estão modificando o campo de batalha. Sistemas de energia dirigidos (os lasers) começaram a ser instalados em navios da Marinha e na defesa antimísseis: pela primeira vez as armas empregam algo que não seja a força cinética. Ao mesmo tempo, a impressão em 3D permite que um bit de informação – um design gráfico de computador – se transforme num átomo, numa coisa (seja ela uma peça de automóvel, uma arma, ou mesmo um drone). A capacidade não apenas de criar protótipos mais rapidamente, no local e por encomenda, representa uma mudança imensa para a economia da defesa, que rivaliza com o impacto das primeiras linhas de montagem.

Finalmente, as tecnologias que modificam o desempenho humano (HPM) estão usando hardware e tecnologia química para incrementar nossas capacidades físicas e mentais. Se na ficção científica Luke Skywalker tinha uma mão robótica, agora temos próteses biônicas que permitem que vítimas de engenhos explosivos caseiros voltem para as unidades de combate depois de perder um braço ou uma perna. Dez por cento da população americana hoje usa um marca-passo, um sistema de administração de medicamentos ou algum outro aparelho médico implantado no corpo. Utilizaremos cada vez mais a tecnologia não apenas para substituir, mas para aprimorar o desempenho. A espécie humana evoluiu desde a utilização dos punhos e das pedras até as armas, as bombas, e dentro em breve os lasers e as armas cibernéticas nas guerras contra o semelhante. Mas o frágil corpo humano continuou basicamente o mesmo.

A HPM está prestes a mudar essa situação. Assim como os conceitos de H. G. Wells, como o “land ironclad” (que Winston Churchill rebatizou de “tanque”), ou a “bomba atômica” devem ter parecido aos líderes da Grã-Bretanha de um século atrás não apenas ficção científica, mas quase mágica, essas tecnologias são frequentemente ridicularizadas. Quando Arthur Conan Doyle publicou um conto intitulado Danger! antes do início da 1ª Guerra, alertando para as ameaças submarinas, o almirantado britânico foi a público zombar da ideia de que a nova tecnologia dos submarinos poderia ser usada para o bloqueio da ilha- nação.

Claro que tais mudanças são desconfortáveis e haverá resistência a elas – às vezes por razões válidas, outras por questões que nada têm a ver com o desempenho no campo de batalha. Por exemplo, os britânicos inventaram o tanque e o usaram com sucesso na 1ª Guerra. Depois, realizaram testes inovadores que mostraram que eles eram capazes de mudar o jogo num conflito. Entretanto, não se adaptaram plenamente ao conceito da blitzkrieg que provavelmente criaram, em grande parte por causa das consequências que sua implementação teria no apreciado sistema regimental da cultura militar britânica. E não foram só os britânicos; em 1939, o comandante da cavalaria americana, general John Knowles Herr, declarou: “Não desistirei mais nem de um cavalo sequer por um tanque”.

Na verdade, nenhum paralelo histórico é exato – daí o conceito da rima de Twain. O ambiente de segurança hoje é povoado por um conjunto maior de atores, que enfrentam barreiras menores para seu ingresso: há 87 países com drones e mais de 100 com capacidades militares cibernéticas. E isso contando apenas países. O chamado Exército Eletrônico Sírio, que atormenta desde os sites do New York Times até o Corpo de Fuzileiros Navais americanos, não é um “exército” de fato, mas um grupo de hackers pró-Assad supostamente chefiados por um jovem de 19 anos. Uma organização como o grupo libanês Hezbollah não conseguiu construir ou operar plataformas de batalhas como um navio de guerra ou um porta-aviões, mas consegue usar drones – e já vem fazendo isto.

Ao contrário do último período entre as guerras, o lado civil está competindo com o militar, não só no desenvolvimento de tecnologia como em seus usos mais inovadores. Nas últimas gerações, os militares desempenharam um papel central no estímulo de novas tecnologias que também seriam usadas no setor civil: motores de jatos, energia atômica, computadores. Hoje, o desafio está em como aproveitar a tecnologia civil, como sistemas de TI ou robôs. Das sementes da pesquisa Darpa (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada para a Defesa), Google e Volkswagen trabalham num projeto de carros que dispensam o motorista preparando-se para abertura do espaço civil aos drones em 2015. Se não tomarmos cuidado, daqui alguns anos jovens recrutas se engajarão e descobrirão que, como já aconteceu com os computadores e os smartphones, em casa eles dispõem de equipamentos melhores e mais baratos…

O que esse torvelinho de mudanças significa é que o foco dos círculos da defesa em Washington nas estratégias tradicionais para o planejamento da força não basta. Nestes tempos de rápida evolução estratégica e tecnológica, não basta modificar itens do orçamento bélico ou reduzir custos do pessoal. Não acompanhar as grandes mudanças de hoje significa fracassar na geopolítica e nos campos de batalha de amanhã.

E, como no último período entre as guerras, Churchill talvez dissesse: “Falta de previsão, falta de vontade de agir quando a ação seria simples e eficaz, falta de um raciocínio claro, conselhos confusos até surgir a emergência, até a autopreservação tocar seu gongo estridente – essas são as peculiaridades que constituem a incessante repetição da história”./Tradução de Anna Capovilla

Fonte: Estadão Online – P. W. Singer

* P. W. Singer é diretor do Centro para a Segurança e Inteligência no Século 21, da Brookings Institution, em Whashington e autor de Cybersecurity and Cyberwar: what everyone needs to know (No Prelo).

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