Mesmo com crise econômica grave, Maduro reforça arsenal militar

Exercícios militares. Soldados venezuelanos se preparam para embarcar no porto de La Guaira; crise não impediu expansão de gastos com Defesa - FEDERICO PARRA / AFP/8-1-2017

Por Maolis Castro do ‘EL PAÍS’

CARACAS – Nicolás Maduro quer demonstrar ao inimigo que está preparado para um ataque hipotético. O presidente venezuelano ordenou esta semana um novo deslocamento de tropas armadas em 14 de janeiro. Para manter esse poder, o chavismo não deixou de aumentar seu arsenal durante os últimos 16 anos, em meio a uma forte crise econômica, e as últimas compras de armamentos foram feitas junto à China e à Rússia.

— Hoje, a Venezuela tem um poder militar destacado nas ruas para proteger a paz, a independência e a soberania — afirmou Maduro em recente discurso.

O arsenal da Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb) da Venezuela cresceu durante a revolução. O país ocupa o quinto lugar na América Latina em gastos militares. Está, além disso, entre as 36 nações do planeta que mais investem no setor. Durante o chavismo, entre 1999 e 2015, foram gastos mais de US$ 5,6 bilhões em armamentos, de acordo com números do Instituto Internacional de Estocolmo para o Estudo da Paz (Sipri, na sigla em inglês).

A compra de artilharia não parou mesmo com o país afundado numa enorme crise. Em dezembro, Maduro aprovou um orçamento para a aquisição de material militar vendido pela Rússia e pela China

— Autorizei recursos suficientes para equipar todos os combatentes da Força de Ação Especial, os grupos especiais e as tropas de ação rápida da Fanb das mais modernas armas e tecnologia mundial — enfatizou o presidente, em discurso televisionado.

Dias antes, Maduro enfrentara uma onda de protestos gerada pela retirada de circulação das notas de mais alto valor no país, as de 100 bolívares. No estado de Bolívar, no Sul do país, foi decretado toque de recolher para apaziguar a intensidade dos protestos. A militarização e a flexibilização da medida monetária acalmaram os ânimos.

As questões armamentistas são conduzidas com discrição pelo governo. Para Lexys Rendón, coordenadora da associação Laboratório de Paz, este ano é possível que a falta de transparência do governo sobre os gastos com a Defesa atinja seu auge.

— O Orçamento do país nem chegou a ser discutido pela Assembleia Nacional, e foi aprovado diretamente pelo Tribunal Supremo de Justiça — explica. — Isso aconteceu devido a um confronto entre os Poderes públicos (o Parlamento, controlado pela oposição, e o Supremo dirigido pelo chavismo). As contas do Executivo são cada vez mais nebulosas.

Muitas organizações civis têm exigido uma diminuição do orçamento destinado à Defesa da Venezuela, o país com maior contração econômica nas Américas. Os investimentos se reduziram com as quedas nos preços do petróleo. O governo cortou em 90% as compras militares entre 2015 e 2016, segundo um relatório da associação civil Controle Cidadão, mas tudo não passou de uma rápida tempestade na carreira armamentista do chavismo. Já no ano passado, houve um aumento de 5% na compra de equipamentos e sistemas bélicos para a Fanb.

Mas as armas não estão apenas nas mãos do Exército. Ainda que artefatos explosivos, fuzis e munições sejam administrados exclusivamente pela Companhia Anônima Venezuelana de Indústrias Militares (Cavim), uma estatal venezuelana que municia as Forças Armadas e a polícia bolivariana, o domínio de algumas dessas armas letais passou, de forma irregular, a mãos de terceiros no país.

Granadas nas ruas

Uma granada matou Gian Franco Cesa, um arquiteto de 25 anos, depois de ser acidentalmente detonada por um de seus sequestradores dentro de um automóvel em Caracas. A explosão aconteceu em 8 de agosto, dias antes de a vítima embarcar para os Estados Unidos na tentativa de escapar da crise. A explosão também matou seus sequestradores.

Ataques com granadas acontecem em prisões, delegacias e ruas da Venezuela. Entre 2013 e 2015, a Venezuela foi o país latino-americano com o mais alto número de civis mortos por granadas, segundo o Escritório das Nações Unidas para o Desarmamento na América Latina e no Caribe (Unlirec, na sigla em inglês). A sangrenta tendência se manteve no ano passado. Uma reportagem do diário digital “Runrunes” contabilizou 49 mortos e 155 feridos em 32 ataques com granadas realizados entre janeiro e agosto de 2016.

FONTE: O Globo