Por Guilherme Wiltgen

Aproveitando a realização da RIDEX – Rio International Defense Exhibition, o Defesa Aérea & Naval (DAN) entrevistou o Presidente da Helibras, Richard Marelli, que assumiu a subsidiária brasileira da Airbus Helicopters em Dezembro de 2015, e nos falou um pouco sobre a atuação da Helibras nesses 40 anos.

Richard Antoine Celestin Marelli é graduado pelo Instituto Nacional de Ciências Aplicadas de Lyon (INSA) com Mestrado em Engenharia desde 1981. Também possui especialização em Desenvolvimento Técnico (1991) e Cooperação Internacional (1992). Atua no grupo Airbus Helicopters desde 1981 e participou ativamente do protótipo de engenharia dos helicópteros Dauphin e Super Puma na França. Marelli também foi responsável pelo Departamento de Integração de Sistemas e do Centro Elétrico Industrial, bem como diretor das linhas de montagem do NH90.

No Brasil, foi diretor do programa H-XBR desde o seu início, vice-presidente industrial e executivo, estando envolvido no processo de transferência de conhecimento e no salto tecnológico experimentado pela empresa. Em Novembro de 2017, a Airbus nomeou Richard Marelli como Head of Country no Brasil. Além de seu atual papel no comando da Helibras, Marelli será o principal representante do grupo Airbus no País e responsável por conduzir assuntos governamentais, contribuindo para a estratégia e apoio às campanhas comerciais da companhia.



Defesa Aérea & Naval – A Helibras iniciou sua história no emblemático Hangar X-10 do antigo CTA (hoje DCTA), em São José dos Campos, e agora está instalada em uma moderna planta industrial em Itajubá. Como foi essa jornada de 40 anos?

Sr. Richard Marelli – Nossa história teve início em 14 de abril de 1978, no emblemático Hangar X-10, em São José dos Campos. De lá para cá, já são 40 anos de muito trabalho e de uma trajetória que nos enche de orgulho. Fechamos contratos importantes com as Forças Armadas, inauguramos nossa fábrica em Itajubá (MG) e também o hangar de manutenção, no aeroporto Campo de Marte, em São Paulo.

Em 2008, demos um dos passos mais importantes de nossa história ao assinar o contrato para venda de 50 aeronaves H225M para as Forças Armadas, marcando nosso mais ambicioso período de expansão. Além da geração de emprego, grande capacidade produtiva e investimentos, também desempenhamos um papel decisivo na transferência de tecnologia e capacitação de mão de obra da França para o Brasil.

Todo conhecimento adquirido permite à empresa oferecer novas soluções e vislumbrar novos projetos, representando um salto qualitativo para o país, o que proporcionou à Helibras uma vantagem competitiva por estar estabelecida no Brasil. As contribuições da Helibras para a indústria aeronáutica brasileira também passam pela formação de pilotos e mecânicos, incluindo a instalação de um Centro de Treinamento no Rio de Janeiro. O local recebeu há poucos anos um simulador completo do helicóptero H225 e H225M, do tipo “Full Flight Simulator”, capaz de diversos tipos de missão, tanto para emprego militar quanto para o segmento de petróleo.

Nesses 40 anos, a Helibras também se consolidou como uma grande prestadora de serviços de manutenção e customização de helicópteros produzidos pela Airbus e comercializados no Brasil e América Latina e se destaca também por dois grandes programas de modernização que envolvem mais de 70 aeronaves para o Exército Brasileiro.

A história do helicóptero no Brasil, um meio de transporte fundamental para várias atividades da indústria como o transporte, a segurança e a infraestrutura, está diretamente ligada à presença da Helibras no país. Hoje contamos com mais de 500 funcionários e, desde sua fundação, já entregamos aproximadamente 800 helicópteros no Brasil.

DAN – O primeiro operador dos helicópteros da Helibras, foi a Marinha do Brasil, que adquiriu o HB350 Esquilo, e que estão voando até hoje. O que significou para a Helibras essa venda?

Richard Marelli – Mais que uma venda, essa parceria histórica marcou o início de um grande passo, para toda indústria aeronáutica de asas rotativas do Brasil, pois foi o início da contribuição para o desenvolvimento tecnológico no país, associado ao crescimento sustentado da Indústria Nacional de Defesa.

Logo após inaugurarmos nossa fábrica em Itajubá (MG) em 1978, tivemos a honra de ter a Marinha do Brasil como primeiro cliente já em 1979, ao viabilizar a linha de produção do Esquilo, o que nos trouxe a importante oportunidade de demonstrar nossas capacidades técnicas e industriais a todo país.

O Esquilo, modelo a turbina mais vendido no mundo, continua a ser fabricado em nossa linha de montagem e incorpora, ao longo desses 40 anos de experiência, muitas inovações, inclusive locais, fazendo com que tenha atualmente 50% de conteúdo nacional agregado em sua produção.

DAN – Em 1988, a Helibras venceu uma nova concorrência militar, agora para fornecer os helicópteros da recriada Aviação do Exército. Quais os desafios enfrentados para colocar em operação uma frota inicial de 16 Esquilos e 36 Panteras e qual foi o ganho técnico industrial para a empresa?

Richard Marelli – Para este trabalho de modernização, os mecânicos de manutenção da Helibras tiveram que realizar um treinamento na então Aerospatiale (hoje Airbus Helicopters), que os capacitou a efetuar grandes intervenções nas aeronaves. O chamado “on the job training” trouxe para os profissionais brasileiros o domínio de novos e importantes conhecimentos, que permitem que os helicópteros passem por todas as etapas de modernização no Brasil com as equipes qualificadas pela empresa. Um importante ganho técnico industrial para nós e para o país.

Em 2010, dentro do espírito de parceria entre Helibras e Exército, dois engenheiros da Aviação do Exército (AvEx) também passaram por uma integração de seis meses nas instalações da Aerospatiale em Marignane (França), junto às equipes da fábrica e da Helibras. Todo conhecimento adquirido fez com que fosse possível que a Helibras também pudesse treinar militares de manutenção da AvEx, passando o conhecimento cada vez mais adiante.

DAN – Além dos clientes militares, atualmente a Helibras possui uma significativa parcela dos helicópteros executivos utilizados no Brasil. Como a Helibras está atuando nesse mercado e quais produtos estão sendo introduzidos para atender a demanda do mercado civil?

Richard Marelli – Para atender a crescente demanda do mercado civil e corporativo/VIP no país, a Airbus Helicopters anunciou em 2017 sua nova marca dedicada à aviação executiva: a Airbus Corporate Helicopters, identificada pela logo ACH. A novidade oferece ao mercado de aviação executiva consultoria e design diferenciado, com opcionais e serviços sob medida que vão desde o acabamento do interior da cabine dos helicópteros até serviços exclusivos, atendendo aos requisitos mais exigentes.

A oferta da ACH, apoiada por um serviço personalizado para ajudar a adaptar os modelos aos requisitos dos clientes mais exigentes, vem em três linhas de produtos diferentes para o design e interior dos helicópteros:

• Linha ACH – Com base no conceito de estilo da Airbus Corporate Helicopters, é a resposta perfeita para quem procura um design leve e eficiente
• ACH Exclusive – Esta linha de interior atende àqueles que procuram um ambiente verdadeiramente exclusivo com os mais altos padrões de requinte, luxo e conforto.
• ACH Editions – Esse segmento contará com os designers da Airbus Corporate Helicopters e colaborações especiais com parceiros de marcas de luxo que vão desde Hermes até Mercedes Benz, podendo incluir ainda desenhos do renomado designer Peder Eidsgaard.

Já na oferta de serviços diferenciados, a ACH contará um uma linha exclusiva do HCare, chamado HCare First. Nessa versão adaptada, o cliente terá o pacote de serviço mais abrangente da indústria de helicópteros, que oferece um serviço de estilo concierge para apoio em qualquer lugar do mundo.

A linha dedicada de serviços faz parte da forte atuação do grupo em oferecer cada vez mais disponibilidade das aeronaves, especialmente para o mercado executivo.

A Helibras está pronta para prestar todo o suporte ao primeiro H145 VIP que chegou ao Brasil e já iniciou suas operações.

Finalmente, no início de 2017, a empresa reformulou e treinou sua Equipe de Vendas e estabeleceu um Plano de Ação para o segmento Corporate, de modo a atender os anseios desse nicho, e que tem dados bons resultados.

DAN – Outro mercado tradicional da Helibras é o de Oil & Gas. Em 2015, a Airbus promoveu o Demo Tour do H175 no Brasil, uma aeronave voltada para esse segmento. Quais os planos da empresa para introduzir o H175 no mercado brasileiro?

Richard Marelli – Em novembro de 2017, demos um dos mais importantes passos rumo à introdução do H175 no mercado brasileiro, momento em que foi obtida a certificação do modelo junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Atualmente, o modelo já pode operar no País.

O projeto do H175 iniciou-se em 2014 com a aprovação da Agência Europeia de Segurança da Aviação (EASA). Hoje conta com 23 unidades (19 no mercado O&G) operando em oito países. Apesar do H175 ter nascido para o mercado de Oil & Gas e oferecer a melhor taxa de carga por passageiro/raio de ação (RoA) na categoria de helicóptero médio, o modelo também traz diversos diferencias nos segmentos civil e para-público.

Além disso, em breve a aeronave também receberá certificação para missões do Serviço Público, tais como Busca e Salvamento (SAR), Serviços Médicos Emergenciais (EMS) e missões Policiais.

DAN – Em 2013, a Helibras inaugurou as modernas instalações Centro de Suporte ao Cliente (CSC), localizado em Atibaia, interior de São Paulo. Qual foi o impacto nos serviços de manutenção, reparo, fornecimento de peças, garantia e assistência técnica da Helibras?

Richard Marelli – As modernas instalações em Atibaia (SP) são parte de nosso forte investimento em colocar o cliente no centro do nosso negócio e garantir que ele tenha não apenas as melhores e mais seguras aeronaves, mas para que ele possa ter suas necessidades e desejos atendidos integralmente e com muito mais agilidade.

Tudo isso, claro, depende não apenas da mudança de processos internos, fluxo de trabalho, mas de investimento. Foi nesse espírito que investimos 6 milhões de dólares no Centro de Suporte ao Cliente em Atibaia, com mais de R$ 60 milhões em estoque de peças e componentes, o mais completo do País.

Já estamos vendo resultados concretos desses investimentos. Conseguimos atender 96% dos pedidos dos clientes dentro da data requerida, reduzindo o número de Aircraft on Ground (AOG). Mais de 80% dos clientes podem ser atendidos prontamente com nosso estoque no Brasil, mostrando excelente previsibilidade da frota. Essa afinada previsibilidade, nos permite ter coleções de spare parts por modelo, que faz o papel regulador do estoque sem desperdício. E os poucos itens faltantes, compensamos com o sistema OEA, o qual nos permite agilizar o processo de importação em no máximo cinco dias para materiais em estoque na matriz. Implementamos em 2013 o AOG Desk 365 dias no ano (incluindo finais de semana e feriados), das 7hrs às 22hrs, melhorando ainda mais a disponibilidade da frota.

Essas características diferenciam a Helibras dos demais concorrentes e nos posiciona de um modo muito mais arrojado e próximo do cliente, uma vez que ele passa a ter uma percepção de que não está apenas adquirindo o melhor produto, mas também o melhor pacote de serviços. Isso significa mais agilidade e conforto, além, é claro, de mais retorno no investimento feito por ele.

DAN – Em 2014, a Helibras anunciou que teria condições de definir o tipo e categoria do helicóptero que será projetado e desenvolvido no Brasil. Como está esse planejamento, vamos ver um helicóptero desenvolvido e fabricado no Brasil por brasileiros?

Richard Marelli – Como única fabricante de helicópteros do país, temos a capacidade de desenvolver uma aeronave 100% nacional por meio da transferência de tecnologia e acreditamos que no futuro em função da necessidade local vamos iniciar esse desenvolvimento.

DAN – Quando a Helibras completou 30 anos, foi assinado o contrato de fornecimento de 50 helicópteros H225M (ex-EC725), dentro do programa H-XBR. Qual foi o ganho tecnológico adquirido com esse contrato e como ocorreu a transferência de tecnologia às empresas nacionais?

Richard Marelli – A transferência de tecnologia tem como resultado o reconhecimento de cooperação industrial, que é um aspecto de grande importância para a Helibras. Até o momento, a empresa já recebeu um total de €732.457.880,00 em créditos por conta dos vários processos cumpridos durante o programa. O valor do reconhecimento significa que trouxemos para o país essa quantia em termos de investimento, transferência de tecnologia, know-how e geração de empregos.

Foram reconhecidas, por exemplo, atividades como as de inauguração da linha de montagem do H225/H225M, conclusão do primeiro kit de cablagens elétricas para o cone de cauda, desenvolvimento de sistemas de missão do H225M produzidos na planta de Itajubá, intercâmbio de funcionários, planejamento de recursos empresariais e treinamentos na matriz Airbus Helicopters para capacitação do Centro de Engenharia da empresa na modernização de aeronaves militares.

DAN – Ainda dentro do programa H-XBR, o Departamento de Engenharia da Helibras deu um salto evolutivo. Quais os reflexos disso para a empresa?

Richard Marelli – Como parte do programa de transferência de tecnologia, enviamos funcionários nossos para a matriz na França aprenderem mais sobre o processo de produção do H225M, assim como recebemos engenheiros franceses da Airbus para nos ajudar na implantação dos processos de fabricação da aeronave no Brasil.

Como reflexo disso, nosso departamento de Engenharia adquire conhecimentos que o país ainda não possui e está cada vez mais apto a trabalhar de forma independente na produção e desenvolvimento do H225M, entre outras tecnologias relacionadas.

DAN – Resultado dessa engenharia no “estado da arte”, a Helibras vai entregar esse ano o H225M NAVAL, uma aeronave com avançados sistemas e com a capacidade de lançamento do míssil anti-navio Exocet. Como se deu o desenvolvimento dessa versão na Helibras?

Richard Marelli – O desenvolvimento e a fabricação desta nova versão naval foram realizados sob a total liderança da Helibras em colaboração com a ATECH e ADS, responsáveis pelo sistema tático de Missão Naval que é o coração da integração do míssil com a aeronave e sensores; e a Avibras e a Mectron, que realizam a motorização do míssil Exocet AM39 B2M2, fabricado pela MBDA. Esse desenvolvimento é inédito no mundo e está sendo realizado por brasileiros.

Esta é a versão do H225M mais complexa produzida e desenvolvida pelo Centro de Engenharia da empresa dentro do programa H-XBR e foi feita em estreita colaboração com as Forças Armadas e nossos parceiros. Em agosto de 2017, demos um importante passo rumo à sua entrada em serviço ao realizar o segundo voo da campanha de certificação.

DAN – A entrada em serviço do H225M NAVAL na Marinha do Brasil pode abrir o mercado de helicópteros navais para esse tipo de modelo? Como a Helibras enxerga essas possibilidades de novos negócios na América Latina?

Richard Marelli – Acreditamos que exista a possibilidade de comercializarmos para outros clientes e subsidiárias da Airbus ao redor do mundo. Essa solução é única no mundo.

DAN – A Marinha do Brasil e o Exército Brasileiro estão com os programas de aquisição para helicópteros de instrução, emprego geral leve e de ataque, em andamento. Quais aeronaves a Helibras está oferecendo, quais os seus diferenciais e como a empresa vai dar suporte de manutenção e suprir a cadeia logística? Essas aeronaves podem ser fabricadas na Helibras, por conseguinte, gerando novos postos de trabalho na subsidiária brasileira?

Richard Marelli – As Forças Armadas precisam substituir seus helicópteros de instrução “ab initio” em curto prazo. A solução da Helibras / Airbus é o H125 (AS 350B3), helicóptero consagrado no mundo. São mais de 3.000 aeronaves da família Esquilo em operação. São inúmeras as vantagens do H125. Destacamos algumas: melhor relação custo-benefício, baixo custo operacional, aeronave multimissão de fato (formação do piloto militar mais completa), capacidade de armar com metralhadoras e foguetes e seu ponto forte que é o suporte logístico. Neste aspecto, somos o único fornecedor que tem capacidade plena de MRO instalada no Brasil e uma cadeia logística inigualável, o que significa garantir a disponibilidade da frota ao longo dos anos.

DAN – A criação do Centro de Treinamento e Simuladores no Rio de Janeiro foi um grande passo que a Helibras deu no Brasil. Em termos percentuais, como está a utilização do mesmo? o que pode ser feito para aumentar a utilização caso ainda não tenha atingido 100%?

Richard Marelli – O Centro de Treinamento e Simuladores possui mais de 60 cursos diferentes para os todos os segmentos de mercado. São cursos teóricos e práticos de voo e em simuladores. Temos capacidade de ampliar a gama de serviços de treinamento, conforme a demanda do mercado. Em termos de Simuladores, hoje temos espaço para instalar mais uma cabine e isso vai depender do mercado. Os segmentos civil e governamental possuem volume interessante, e basta que mudem a cultura para fazerem regularmente esse tipo de treinamento.

DAN – Quais são os planos para os próximos 40 anos?

Richard Marelli – Como única fabricante de helicópteros do país e da América Latina, acreditamos que temos um importante papel no desenvolvimento da aviação de asas rotativas no Brasil e no Cone Sul. Continuaremos nos empenhando para disponibilização de soluções personalizadas para os Mercados Civil e Militar, na contínua evolução da engenharia e tecnologia aeronáutica, na expansão do Suporte e Serviços, tendo sempre como foco a satisfação de nossos clientes. Se tornar um HUB para América Latina para modernização (ex: upgrade para Prefectura Naval Argentina do helicóptero Dauphin), HUB para DCR (“Dynamics Componente Repairs”) e investir num novo prédio DCR “State of the Art” na nossa planta em Itajubá são alguns dos nossos planos.



 

2 Comments

 

  1. 28/06/2018  21:08 by Tomcat4.0 Responder

    Só faltou mencionar ,na resposta, se oferecem outros modelos de Helicópteros a nossas forças armadas além dos já utilizados.

  2. 28/06/2018  10:20 by Pablo Responder

    O H225 Naval poderá lançar o MANSUP quando estiver operacional na marinha?

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