ARA ‘San Juan’: Tragédia de submarino expõe casos de corrupção na Marinha argentina

Após desaparecimento do ARA San Juan no Atlântico Sul, surgem denúncias de irregularidades na compra de equipamento, de pagamento de propina a funcionários públicos e de favorecimento de empresas em licitações

Em meio às buscas pelo submarino ARA San Juan, que desapareceu após ter sofrido uma explosão no dia 15, denúncias de corrupção sobre a compra de insumos sem licitação para a Marinha argentina envolvem as empresas responsáveis pelas baterias da embarcação – que teriam tido um curto-circuito pouco tempo antes de a embarcação perder contato com o continente.

Um pedido de investigação do ex-deputado da União Cívica Radical Miguel Giubergia foi arquivado por parlamentares leais à então presidente argentina, Cristina Kirchner (2008-2015). O caso envolvia o pagamento de 3,5 milhões em propina para as empresas alemãs Ferrostaal e Hawker, responsáveis pela vendas de lanchas militares para a Marinha argentina. As mesmas empresas são as responsáveis pela venda das baterias do San Juan, que foram alvo de uma auditoria interna do Ministério da Defesa já no governo de Mauricio Macri.

Segundo o ex-deputado, que hoje apoia o atual presidente, o processo violou todas as normas internas de contratação da Marinha e do governo. “Um diretor da Ferrostal em Munique, na Alemanha, confessou o pagamento de subornos a funcionários do Estado no valor de 3,5 milhões”, disse o ex-deputado à Rádio Continental. “Não tivemos resposta, porque o governo na época controlava a Câmara dos Deputados.”

Ainda de acordo com Giubergia, a então ministra da Defesa, Nilda Garré, negou irregularidades. “Eles, porém, não nos responderam de maneira satisfatória”, acrescentou. “Por 5,1 milhões de euros, a mesma empresa foi responsável pela venda das baterias do submarino.” A ex-ministra, hoje deputada kirchnerista, não retornou pedidos de entrevista da reportagem.

Segundo o jornal La Nación, uma auditoria do Ministério da Defesa, em 2015 e em 2016, detectou irregularidades na compra das baterias do submarino. Segundo documentos obtidos pelo jornal, a Marinha descumpriu parâmetros para a reparação de meia vida do submarino, ocorrida em 2006, e a troca de baterias – antes da explosão do dia 15, a tripulação notificou o continente de um curto circuito no equipamento, que teria sido solucionado. O jornal diz que a compra de insumos para o submarino privilegiou alguns fornecedores e alguns deles foram comprados com a garantia vencida.

A difícil busca pelo submarino ARA San Juan, perdido no Atlântico Sul, continuou ontem com o rastreamento realizado por uma coalizão internacional em um ambiente “extremo e adverso”. As operações de resgate do submarino e de seus 44 tripulantes se concentra agora em um raio de 36 quilômetros dentro da área geral de rastreamento no Atlântico Sul, a cerca de 450 quilômetros da costa da Patagônia.

“Depois de 12 dias de buscas, a situação, o ambiente, não param de ser extremos e adversos, mas não podemos confirmar nem sermos categóricos até termos mais evidências”, afirmou ontem o porta-voz da Marinha, Enrique Balbi. “Todos os meios estão mobilizados para localizá-lo.”

Ontem, chegou à região do resgate um minissubmarino que exigiu para seu traslado a reforma da popa do Sophie Diem, um navio cedido pela Noruega. A Marinha argentina trabalha com a hipótese de que jamais se encontre o casco do submarino. E, se o encontrarem, e ele estiver apoiado sobre o fundo do mar, a mais de 3 mil metros de profundidade, será muito difícil trazê-lo à tona.

Oficialmente, a Marinha não considera os 44 tripulantes mortos. O comando naval ainda fala em “condições extremas de sobrevivência”. No entanto, parentes dos marinheiros e jornalistas consideram o caso encerrado e já nem mais perguntam sobre o tema.

FONTE: AFP

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