Por Leonam Guimarães
A decisão do ex-presidente Donald Trump de ordenar a retomada dos testes de armas nucleares pelos Estados Unidos, anunciada nesta semana, provocou reações imediatas de Moscou e Pequim e reacendeu temores de uma nova corrida armamentista global. Desde 1992, os norte-americanos mantêm uma moratória voluntária sobre testes explosivos, em consonância com o espírito do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT), ainda não em vigor, mas amplamente respeitado. Ao romper esse consenso de fato, Washington não apenas altera a lógica de contenção nuclear vigente há mais de três décadas, como desafia os pilares de estabilidade estratégica que moldaram o pós-Guerra Fria.
O anúncio de Trump ocorre num momento de crescente tensão entre as potências nucleares e revela uma percepção de que os Estados Unidos teriam ficado atrás de Rússia e China na modernização de seus arsenais. Ao justificar a decisão, o ex-presidente afirmou que seu país deve “igualar o campo de jogo” diante de rivais estratégicos que, segundo ele, já estariam conduzindo testes. O gesto, no entanto, é mais político do que técnico: ao ordenar publicamente o reinício dos testes, Trump envia uma mensagem de força e autossuficiência em um contexto de reacomodação global, no qual o poder nuclear volta a ser símbolo de prestígio e soberania.
A reação chinesa foi imediata e contundente. Pequim instou Washington a respeitar o compromisso internacional de proibição de testes nucleares e advertiu que a estabilidade global não pode ser colocada em risco por decisões unilaterais. A China, que acelera a expansão de seu arsenal, estimado hoje em cerca de 600 ogivas e projetado para dobrar até o fim da década, tenta se apresentar como defensora da moderação, ainda que sua própria transparência nuclear seja limitada. Já Moscou adotou um tom mais calculado. O Kremlin negou estar retomando seus próprios testes e afirmou que aguardará um “primeiro passo concreto” dos Estados Unidos antes de reagir. A mensagem é clara: a Rússia não deseja ser vista como iniciadora de uma nova corrida nuclear, mas tampouco aceitará permanecer passiva diante de um eventual desequilíbrio estratégico.
A decisão norte-americana ameaça corroer a arquitetura global de não proliferação construída a duras penas desde o fim da Guerra Fria. A moratória informal de testes, respeitada inclusive por potências fora do CTBT, como Índia, Paquistão e Israel, servia como freio simbólico e técnico à disseminação de novas armas e ao desenvolvimento de dispositivos mais letais. Romper essa barreira pode abrir espaço para que outros países sigam o mesmo caminho, sob o argumento de “legítima defesa estratégica”. Além disso, a imprevisibilidade introduzida por uma possível retomada de testes aumenta o risco de mal-entendidos, acidentes e escaladas não intencionais, um cenário que remete aos momentos mais perigosos da bipolaridade nuclear.
Para o Brasil e a América Latina, o impacto é indireto, mas relevante. Signatário do Tratado de Tlatelolco, que proíbe armas nucleares na região, e do Tratado de Não Proliferação (TNP), o país sempre defendeu o uso pacífico da energia nuclear e o desarmamento progressivo. Um retrocesso global nessa agenda fragiliza a credibilidade de fóruns multilaterais e pode dificultar a promoção da diplomacia brasileira como mediadora entre potências. Além disso, em um ambiente internacional mais tenso e polarizado, cresce a necessidade de reforçar mecanismos domésticos de segurança, salvaguardas e governança nuclear, evitando vulnerabilidades técnicas e políticas.
O gesto de Trump, portanto, vai além de uma simples medida militar. É um movimento simbólico que recoloca a bomba no centro da política mundial e desafia a lógica de previsibilidade que sustentou a paz nuclear das últimas décadas. Mais do que uma decisão sobre testes, trata-se de uma declaração de intenções: a de que o poder nuclear volta a ser instrumento explícito de afirmação nacional e pressão geopolítica. O mundo, que há trinta anos acreditava ter encerrado o ciclo dos testes atômicos, volta a flertar com um perigoso déjà-vu, um tempo em que a dissuasão era medida em megatons e a paz, em precário equilíbrio sobre o abismo.
