TERROR EM PARIS – A noite mais escura

terror em Paris

Por Rodrigo Craveiro

Em série de tiroteios e de explosões suicidas, extremistas disseminam o caos em Paris, fazem reféns e matam mais de 120 pessoas. Estado Islâmico assume autoria da carnificina e avisa que franceses “bebem do mesmo cálice” de crianças e idosos na Síria e no Iraque.

Paris, a Cidade-Luz, mergulhou na noite de ontem na mais absoluta escuridão do terror. Homens armados com fuzis Kalashnikov e cinturões-bomba atacaram sete pontos da capital francesa, em uma onda de atentados simultâneos sem precedentes. Seis tiroteios, três explosões — duas delas provocadas por militantes suicidas — e a tomada de reféns durante um show da banda de rock Eagles of the Death Metal, na casa de shows Bataclan, deixaram mais de 120 mortos e centenas de feridos, dezenas em estado crítico. As explosões, ocorridas durante o amistoso entre as seleções de França e Alemanha, em um bar próximo ao Stade de France, forçaram o presidente François Hollande a ser retirado às pressas do estádio e mataram quatro.

O horror apenas começava e se espalhava pelos distritos 10 e 11, no norte de Paris. Na Praça da República, um terrorista disparou mais de 100 vezes, matando quatro e ferindo gravemente 11. No Bar Belle Equipe, na Rua Charonne, foram 19 vítimas. Outros atentados ocorreram no restaurante cambojano Le Petit Cambodge, na Rua Alibert (14 mortos); e no Restaurante Le Carrillon, logo em frente (3). O Itamaraty confirmou que dois brasileiros ficaram feridos. O grupo extremista Estado Islâmico (EI) reivindicou a autoria dos atentados em série, por meio de mensagem publicada em sua revista Dabiq.

“A França manda seus ataques aéreos para a Síria diariamente” (…) e essas ofensivas “matam crianças e idosos”. “Hoje, vocês estão bebendo do mesmo cálice”, escreveu a facção, de acordo com o SITE, uma página na internet de monitoramento sobre o terrorismo. Na quinta-feira, fontes do governo dos Estados Unidos tinham anunciado a morte do carrasco *Jihadista John, membro do Estado Islâmico que apareceu em vídeos decapitando prisioneiros.

“Eu ainda estou no Bataclan. Primeiro andar. Muito ferido! Há sobreviventes aqui dentro. Eles estão matando todos. Um por um. Primeiro andar, logo!” A mensagem de socorro foi publicada no Facebook por Benjamin Cazenoves, que teria sobrevivido à tragédia. Entre três e quatro homens vestidos de negro invadiram a casa de shows e, aos gritos de Allahu Akbar (“Deus é maior”, em árabe) dispararam com fuzis AK-47 durante 15 minutos. Muitos feridos, caídos no chão, foram atingidos até três vezes. “Isso tudo é culpa de seu presidente. (…) O que vocês estão fazendo na Síria? Vocês vão pagar por isso agora. Isso é pela Síria e pelo Iraque”, diziam os terroristas, segundo depoimento de testemunhas.

Por volta da 0h30 de hoje (21h30 de ontem em Brasília), agentes da Swat entraram no prédio. Três dos extremistas acionaram os explosivos amarrados ao corpo e se mataram ao serem confrontados pela polícia. O Ministério do Interior informou a morte de 112 reféns somente no Bataclan. Até o fechamento desta edição, a polícia ainda caçava jihadistas por toda a Paris, após aconselhar que os moradores ficassem reclusos em suas casas. A Justiça da França abriu investigação por homicídio “em conexão com uma empreitada terrorista”.

Implacável

Ao todo, cinco militantes foram eliminados. Hollande visitou a casa de espetáculos e prometeu um combate implacável contra o terrorismo. “Queremos estar entre aqueles que viram coisas horríveis, para dizer que vamos travar uma batalha e que ela será implacável”, declarou. “O que estes terroristas querem é nos assustar, nos aterrorizar. Há motivo para ter medo, pavor, mas diante deste medo há uma Nação que sabe se defender, mobilizar suas forças e, uma vez mais, vencer os terroristas”, completou. Pela manhã, a polícia parisiense foi acionada para investigar um alerta de bomba no Hotel Molitor, onde a seleção da Alemanha ficou hospedada. Cães farejadores inspecionaram o prédio e nada encontraram.

Brasileiros que moram em Paris relataram momentos de pânico. O técnico de elevadores capixaba Julian Pereira, 29 anos, estava em casa, a apenas 800 metros do Stade de France. “Escutei o barulho de uma das explosões, mas quem se assustou foi minha mulher, que está grávida. Na hora, não percebi nada de anormal; aqui faz muito barulho, pois o metrô passa perto”, comentou, por telefone, ao Correio. Ele contou que o transporte público foi interrompido durante a noite.

A assessora de imprensa goianiense Denise Rodrigues, 30 anos, visitava um espaço para casamento, acompanhada de duas amigas francesas. “O meu celular estava sem bateria. Na hora de pegar o metrô, uma de minhas amigas recebeu um alerta sobre um tiroteio na Praça da República e no distrito 11, onde moro há três anos. Ela ordenou que trocássemos de itinerário”, relatou à reportagem. Ao desembarcar do trem, estranhou a rua deserta e foi abordada por um bombeiro, aos gritos de “Volta para casa, rápido!” Ao chegar à sua residência, Denise colocou o celular para
carregar e percebeu mais de 500 ligações e 50 mensagens.

“Muitos amigos e familiares sabem que moro a 15 minutos do Bataclan”, disse. “Não sei o que vou fazer no futuro. Estou com muito medo. O sentimento de impotência é difícil, mas a resposta aos terroristas tem que ser mostramos que não estamos com medo.”

Em entrevista por telefone, o francês Jean Charles Brisard, especialista em terrorismo e ex-advogado de familiares das vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001, admitiu que a carnificina carrega a marca do Estado Islâmico (EI). “Nós esperávamos um ataque em massa no nosso solo. Sabíamos que, após o ataque à revista satírica Charlie Hebdo, algo grande iria ocorrer na França. O país está engajado militarmente contra a Síria e o Iraque. Também temos cerca de 500 mujahedin (guerrilheiros islâmicos) europeus nos dois países árabes e 2 mil simpatizantes do EI aqui na
França”, explicou à reportagem. “Algo grande aconteceria. Era apenas uma questão de tempo.”

Depoimento

Brasiliense relata caos. “Aqui está um caos. Tem polícia e bombeiro para todo lado. As pessoas estão correndo no meio das ruas. A cidade está em pânico. O atentado foi a 5km e todos estão com medo. Muito barulho de sirenes. Fiquei sabendo do atentado por amigos do Brasil quando cheguei ao hotel. Depois começou a correria. Estou com muito medo. Quando percebi que se tratava de um atentado terrorista, fiquei assustado. Estou com receio de sair do hotel. Quero voltar para casa. Não fui a recepção desde que fiquei sabendo do ocorrido. Meu quarto está trancado. A viagem perdeu o clima. Não sei o que vai ser daqui para frente. Me sinto vulnerável.” David Vinícius Diniz, 23 anos, Brasiliense, morador de Águas Claras, chegou ontem a Paris ao meio-dia (hora local).

Eu acho…

“Foi uma ação coordenada e profissional. Não foi um ataque improvisado. A ação ocorreu em pontos simultâneos da cidade. É óbvio que foi algo mais elaborado do que já enfrentamos. Os militantes usaram fuzis Kalashnikov e cinturões repletos de explosivos. Isso é algo muito diferente, mas aguardado. Talvez esse tenha sido o primeiro passo dado por extremistas europeus que retornaram do Iraque e da Síria. Mas ainda é prematuro para dizer.” J

*Jean Charles Brisard, especialista em terrorismo e ex-advogado de familiares das vítimas dos atentados de 11 de
setembro de 2001.

FONTE: Correio Braziliense

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