Em carta, Brasil pediu a Thatcher para não enviar tropas às Malvinas

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Dias antes de as tropas britânicas desembarcarem de forma maciça nas Malvinas, na guerra de 1982 contra a Argentina, o governo brasileiro fez um último apelo direto à então primeira-ministra Margaret Thatcher para evitar o confronto.

É o que revela carta do então presidente João Baptista Figueiredo (1918-1999), enviada à premiê em 12 de maio daquele ano.

O documento, com registro de “caráter pessoal”, foi identificado pela Folha no acervo da Fundação Margaret Thatcher, que cuida dos arquivos da “Dama de Ferro”.

Segundo a entidade, a carta se tornou disponível este ano, em meio a outros papéis, dias antes de ela morrer, em 8 de abril, vítima de derrame.

Uma lei britânica prevê acesso a documentos de um governo depois de 30 anos.

O apelo de Figueiredo, que alerta para riscos a todo o continente, foi em vão. Nove dias depois, em 21 de maio, forças britânicas chegaram às Malvinas, numa reação à invasão argentina no dia 2 de abril, desencadeando o momento mais grave e sangrento da guerra.

A manchete da Folha do dia seguinte, 22, foi “Ingleses invadem Malvinas”. A disputa durou até 14 de junho de 82, deixou mais de 900 mortos e terminou com vitória britânica. Até hoje, a diplomacia entre os dois países não superou a guerra.

No dia em que enviou a carta ao Reino Unido, Figueiredo visitava, em Washington, o presidente dos EUA, Ronald Reagan, aliado de Thatcher. O brasileiro se equilibrava numa tentativa de posição neutra em relação à guerra.

Figueiredo começa a mensagem a Thatcher citando uma carta dela do dia anterior, em que a premiê teria se mostrado disposta a iniciar uma negociação.

Diz o presidente: “Tendo em mente o avanço da atividade militar no Atlântico Sul, o que aumenta os riscos de um confronto armado de proporções graves, quero reiterar a Vossa Excelência a preocupação do meu país, do governo e da opinião pública, que tais riscos podem estragar os esforços diplomáticos que estão sendo feitos pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Sr. Perez de Cuellar”.

“Tal ocorrência, como sua Excelência pode imaginar, pode ter repercussões graves e profundas tanto na imagem continental americana, bem como em todo o mundo”, continua a carta. E conclui: “Espero, portanto, que as partes em nenhum momento deixem de adotar flexível e construtiva atitude nas presentes negociações nas Nações Unidas”.

Raro

Mestre em História Comparada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos maiores estudiosos da posição do Brasil durante a guerra, Rafael Macedo Santos destaca a importância do documento, cujo conteúdo desconhecia.

Sabia-se até hoje apenas do teor de uma mensagem enviada um mês antes, 10 de abril, e divulgada na época pelos jornais.

“Sem dúvida, é um documento muito raro por se tratar de uma fonte primária. Figueiredo menciona diretamente os riscos para a segurança interamericana”, afirma Macedo Santos.

“Essa carta de 12 de maio é importante porque foi a última tentativa do Brasil de buscar um acordo entre as partes, o que na altura dos acontecimentos, todos sabiam que parecia impossível”, ressalta o historiador.

Uma carta de 10 de abril de 82, logo depois de a Argentina invadir as Malvinas, também foi liberada este ano pela fundação de Thatcher.

Nela, Figueiredo é mais discreto. O presidente pede que se encontre uma solução e coloca o Brasil à disposição para “contribuir” no diálogo.

FONTE: Folha de São Paulo

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