Propina de obra de submarino foi paga ao PT e a ex-almirantes, diz Odebrecht

Delatores afirmaram que a construtora repassou dinheiro relativo ao projeto do submarino nuclear a lobista. Os valores, posteriormente, foram distribuídos a ex-almirantes e viúvas de militares.

Nos depoimentos da delação premiada, ex-executivos da Odebrecht contaram aos investigadores que parte do orçamento para construção do submarino nuclear brasileiro, o principal projeto do país na área militar, foi repassada como propina para ex-almirantes da Marinha e para o PT.

As pessoas citadas nas delações negaram as denúncias (veja ao final desta reportagem o que disseram).
O Prosub – programa de desenvolvimento de submarinos – é uma parceria do Brasil com a França, que envolve a transferência de tecnologia francesa estrangeira para o país. O projeto ainda está em andamento e, segundo a Marinha, o programa do desenvolvimento do submarino nuclear deve ficar pronto em 2027. Até agora, a Odebrecht, uma das empresas que integram o consórcio do projeto, já recebeu mais de R$ 6 bilhões pelas obras.

A outra empresa que faz parte do programa é a francesa DCNS. De acordo com o herdeiro da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, por se tratar de um projeto com transferência de tecnologia, uma empresa brasileira teria que fazer parte do consórcio. Ele contou que, após a Marinha do Brasil fechar o acordo com a DCNS, a companhia francesa convidou a Odebrecht para integrar o projeto.

No entanto, os delatores contaram que a DCNS impôs uma condição: que a Odebrecht repassasse valores para o lobista José Amaro Ramos, que ficaria responsável por distribuir o dinheiro entre os demais participantes do esquema.
Segundo o ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura Benedicto Júnior, o acordo foi feito em Paris. Ele disse ainda que repassou cerca de 40 milhões de euros para Amaro Ramos.

“Quando da assinatura do nosso consórcio, fui a uma reunião em Paris pra assinatura. E um dos executivos da DCNS, na presença do doutor José Amaro Ramos disse: ‘está tudo tranquilo, está tudo bem, mas eu preciso que o senhor faça um contrato e comece a pagar alguns recursos ao José Amaro Ramos. Essa era a condição para que essa parceria evolua”, relatou Benedicto. “A verdade é que eu fiz pagamentos de quase 40 milhões de euros para esse agente”, completou.

Segundo Marcelo Odebrecht, a DNCS queria os repasses a Amaro Ramos porque ele havia “atuado como um consultor pra apoiar a conquista do contrato”. Odebrecht disse ainda que, nos valores negociados do contrato, já constava o custo com o lobista.

“Parece que ela [DNCS] tinha dificuldade de pagar como empresa estatal, e aí o que é que ela fez? Quando ela negociou a nossa parte do contrato, ela já botou o custo do José Ramos, quer dizer, na prática estava no nosso preço”, afirmou Marcelo Odebrecht.

O ex-executivo Luiz Eduardo Soares, que trabalhava no departamento que contabilizava os pagamentos ilegais da Odebrecht, disse que parte do dinheiro repassado ao lobista José Amaro Ramos era destinada a um militar aposentado de alta patente na Marinha, identificado no termo de colaboração como almirante Braga.

“Ele [Braga] recebia esse dinheiro porque, segundo eles, toda a concepção do submarino nuclear saiu da cabeça deles lá na década de 70 e tinham esse acordo com o Amaro Ramos que quando saísse esse negócio eles queriam receber por isso”, afirmou o delator. Soares disse ainda que Braga distribuía o dinheiro para “viúvas de outros almirantes que já faleceram, ex- almirantes”.

Segundo Benedicto Júnior, outro almirante também foi beneficiado no esquema: o ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz da Silva Pinheiro, que está preso por um esquema de corrupção na empresa. Benedicto Júnior diz que a empreiteira queria assessoria técnica de Othon na área de tecnologia nuclear e pagou propina em troca disso.
“Ele trouxe uma conta no exterior, se eu não me engano, fizemos alguns pagamentos nessa conta. E fizemos alguns pagamentos em dinheiro que um executivo entregou na casa dele pessoalmente”, disse o delator.

Os pagamentos foram feitos pelo engenheiro Fábio Gandolfo, diretor de contrato da Odebrecht, que também fez delação premiada. Ele contou que entregou pessoalmente, a título de antecipação, R$ 1,2 milhão em quatro parcelas, na casa de Othon Pinheiro, na Barra da Tijuca, no Rio.

Também foram feitos cinco depósitos, no valor de 300 mil euros cada, numa conta indicada por Othon pinheiro, totalizando um 1,5 milhão de euros. Mas os pagamentos foram barrados na Suíça, porque Othon presidia a Eletronuclear.

Pagamentos ao PT

Marcelo Odebrecht afirmou também que o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, quando ficou sabendo do contrato da empreiteira no projeto do submarino nuclear, pediu contribuições para o partido. Num primeiro momento, o herdeiro da empreiteira, em conversa com o ex-ministro petista Antônio Palocci, disse que não atenderia o pedido de Vaccari.

“O [Benedicto] Júnior me disse que o Vaccari tinha feito um pedido a ele de receber uma doação, um pagamento, por conta deste contrato. Júnior negou e me falou, até porque parece que o Vaccari continuou insistindo, e eu falei com Palocci: ‘olha, Palocci, houve esse pedido, não tem nenhum cabimento, eu já acertei com você o valor global, não vou ficar acertando valor por projeto, entendeu?’ “, afirmou Odebrecht.

No entanto, segundo Marcelo Odebrecht, em uma conversa posterior Palocci renovou o pedido feito por Vaccari. Odebrecht disse aos investigadore que acha que o PT tinha algum problema na ocasião, por isso precisava do dinheiro. Marcelo Odebrecht disse então que descontaria o valor da “conta italiano”, que se referia ao crédito de propina que Palocci tinha na empresa. O montante final desse repasse, segundo ele, ficou entre R$ 6,5 milhões e R$ 17 milhões.

“Eu sei que nesse momento, até aí parece que o PT estava com problema, precisava…tinha uma demanda. E aí, eu acho que o Palocci, para calar um pouco a boca, vou usar esse termo, talvez, para apaziguar um pouco o Vaccari, aceitou que a gente abatesse. E aí foi esse 6,5, eu me lembro, e talvez tenha um valor também, aí aceitou que eu abatesse na conta italiano […] Ou seja, o Palocci, para apaziguar lá o Vaccari, aceitou que eu abatesse da conta dele um certo… um valor que foi entre 6,5, parece, e depois foi para 17. Entendeu? Foi algo que ficou entre 6,5 e 17”, afirmou Odebrecht.

O que disseram as defesas

A defesa de Othon Luiz da Silva Pinheiro disse que os fatos relatados não correspondem à realidade.

Até a última atualização desta reportagem, a defesa de José Amaro Ramos não havia sido localizada.

A defesa de Palocci disse que dono da Odebrecht – Emílio Odebrecht – afirmou em depoimento que havia quatro pessoas que respondiam pelo apelido de italiano nas planilhas da construtora.

A defesa de Vaccari disse que ele jamais pediu ou recebeu pagamentos ilícitos.

O PT não quis se pronunciar.

A Marinha informou que desconhece qualquer irregularidade envolvendo o programa de submarinos e que também desconhece o “almirante Braga” citado na delação.

FONTE: G1

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