Desde a posse de Trump, a política americana para Coreia do Norte é marcada pela confrontação. Algo que serve aos interesses do regime de Kim Jong-un, que que tem na escalada deliberada de tensões sua estratégia.

Com a ameaça do presidente americano, Donald Trump, de investir com “fogo e fúria, como o mundo nunca viu antes”, contra a Coreia do Norte, as tensões entre Pyongyang e Washington alcançam um novo patamar.

A ditadura norte-coreana anunciou possível retaliação com um ataque preventivo contra Guam, ilha americana no Pacífico. Dali, bombardeiros do tipo B-1 partem frequentemente da Base Aérea de Anderson para manobras militares na Península Coreana.

A guerra de palavras está em pleno andamento, e aumenta o perigo de que a situação fique fora de controle. Nos EUA, os arroubos de Trump enfrentam cada vez mais incompreensão. Mas é improvável que o presidente seja capaz de transformar suas palavras em ações, como afirmou o senador republicano e ex-candidato presidencial John McCain. “Os grandes líderes que conheço não expressam ameaças, desde que não estejam dispostos a negociar. E não tenho certeza se o presidente Trump está disposto a negociar”.

Para a ex-vice-secretária de Defesa Evelyn Farkas, com sua retórica, Trump soa “como um ditador norte-coreano.” E o senador democrata Chuck Schumer disse: “Diante da Coreia do Norte, devemos agir com dureza e sensatez. Uma retórica imprudente não é uma boa estratégia para garantir a segurança dos EUA”.

Discurso contraditório

Desde a posse de Trump, a política do governo americano para a Coreia do Norte é contraditória. Na quarta-feira (09/08), o secretário de Estado Rex Tillerson apelou à calma e disse não acreditar que Pyongyang represente uma ameaça iminente, o que incluiu o território de Guam. “Os americanos devem dormir em paz”, afirmou. “O problemático é que não podemos deduzir nenhuma estratégia das ações que podemos observar dos EUA”, diz Eric J. Ballbach, especialista em Coreia do Norte na Universidade Livre de Berlim. “E isso seria realmente necessário. Os EUA falam de uma estratégia de pressão e engajamento. No momento, nada se pode ver, de fato, desses esforços”.

Adam Mount, do Centro para o Progresso Americano, criticou no jornal britânico The Guardian: “O governo Trump se contradiz em todas as áreas de sua política para a Coreia do Norte. Washington continua a procurar respostas fáceis, onde não há nenhuma”.Isso também ameaça intimidar parceiros e Estados, sem os quais nada vai para frente na questão da Coreia do Norte. Até agora, a comunidade internacional está respondendo surpreendentemente em uníssono às provocações do país asiático.

Há poucos dias, o Conselho de Segurança das Nações Unidas acirrou mais uma vez as sanções contra Pyongyang, que são apoiadas também por países como China e Rússia. “Trump está pondo em risco a unanimidade com que a comunidade internacional reage agora à ameaça da Coreia do Norte”, diz Ballbach.

Escalada deliberada de tensões

Para observadores, os arroubos de Trump acabam servindo aos interesses da Coreia do Norte, que tem a escalada deliberada de tensões como parte de sua estratégia. “Diante da desastrosa situação socioeconômica, um regime totalitário como o da Coreia do Norte também tem que legitimar à sua população um programa que demanda elevados custos e recursos como o nuclear”, aponta Ballbach. Segundo ele. tais ameaçadas induzidas deliberadamente também foram utilizadas para dar legitimação aos esforços por armas nucleares.

Em termos de política externa, para o regime de Kim Jong-un, o programa nuclear é uma espécie de seguro de vida. Durante muito tempo, potências como a ex-União Soviética e a China protegeram a Coreia do Norte. Mas, agora, mesmo Pequim, aliado de longa data, dá sinais de irritação com o pequeno vizinho. É extremamente improvável que, hoje, Pequim lute ao lado da Coreia do Norte numa guerra contra os EUA.

Cercado de Estados de superioridade militar e econômica, para Pyongyang o importante é garantir a própria segurança. A dissuasão através de armas nucleares é a melhor pedida. Testes nucleares e de foguetes não são apenas mera provocação, mas a prova militar de que as armas também podem ser usadas em caso de emergência. A mensagem que a Coreia do Norte quer passar é: mesmo que vocês nos destruam, para vocês os danos serão bastante significativos.

Mas como a questão da Coreia do Norte pode ser resolvida diplomaticamente? Para Pyongyang, o programa nuclear é um dos fundamentos de sua política – tanto interna quanto externa. Ao mesmo tempo, os EUA não querem tolerar tal programa. “Uma saída perpassa apenas por um caminho que salvaguarde a reputação de ambos”, diz o especialista Eric J. Ballbach, explicando que isso seria possível somente através de um processo gradual. “Há apenas uma forma pela qual a Coreia do Norte estaria disposta a abandonar seus propósitos nucleares. Para tal, ela deveria atingir um sucesso político em outro nível, eliminando a causa das armas nucleares: isso implicaria que seria preciso haver garantia de segurança dos EUA, ou seja, um pacto de não agressão”.

Mas tal solução gradual requer confiança, algo difícil de conseguir diante da atual retórica de ambos os lados.

FONTE: DW

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