Ex-presidente, arrolado pela defesa de seu sucessor, declarou à Justiça Federal que, ao final de seu segundo mandato, ‘achou melhor não fazer uma compra que seria paga por outro governo’

Por Fábio Fabrini

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse nesta terça-feira, 12, que a Força Aérea Brasileira (FAB) já tinha preferência pelos caças Gripen, fabricados pela multinacional sueca Saab, em 2002, ao fim de seu governo. Em depoimento por videoconferência à 10.ª Vara da Justiça Federal em Brasília, ele explicou que a opção da Aeronáutica foi-lhe manifestada numa reunião, mas que ele preferiu não comprar as aeronaves de defesa naquele momento para não “onerar” a gestão do sucessor, que viria a ser Luiz Inácio Lula da Silva.

“Depois de um longo processo de escolha, houve uma reunião e a decisão da FAB naquela época era de comprar os aviões suecos. Os suecos estavam dispostos a transferir tecnologia”, disse o ex-presidente tucano. “Não foi tomada a decisão. Como estava se aproximando o fim do meu mandato, achei melhor não fazer uma compra que seria paga por outro governo”, acrescentou.

Fernando Henrique depôs como testemunha de defesa de Lula na ação penal em que o petista é acusado de fazer tráfico de influência para que o governo da sucessora, Dilma Rousseff, adquirisse os caças da Saab e também para viabilizar a edição da medida provisória 627, editada pela petista em 2013, que prorrogou incentivos fiscais de montadoras de veículos.

A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) elencou mensagens e documentos mostrando que Lula teria tratado dos assuntos com os lobistas que trabalhavam pela contratação dos caças e a aprovação da MP. Como revelou o Estado em 2015, um deles pagou R$ 2,5 milhões ao empresário Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente. Os procuradores sustentam que o dinheiro foi uma remuneração pelo apoio oferecido por Lula.

A investigação sobre o caso não mostrou se, efetivamente, Dilma ou algum outro agente político chegou a ser influenciado por Lula ao tomar decisões. Somente o fato de “vender fumaça”, ou seja, oferecer a possibilidade de interferência em troca de vantagem, é crime, conforme o MPF.

Os advogados de Lula têm sustentado, com base em depoimentos de testemunhas, que a decisão dos caças foi técnica, tomada após estudos de uma comissão da FAB, e não foi influenciada por Lula.
Fernando Henrique disse que não se recorda de ter conhecido Mauro Marcondes Machado, lobista acusado de pagar R$ 2,5 milhões a um dos filhos de Lula para conseguir viabilizar os interesses da Saab e das montadoras que representava.

“Se conheço, não me recordo de quem seja. Em 86 anos, imagine quantas pessoas que eu conheço e conheci e que não me lembro. O nome me soa.”

O ex-presidente afirmou que políticas de incentivo fiscal a montadoras de veículos, a exemplo da tratada na medida provisória, são normais e vêm de muito tempo, exigindo muita discussão de todos os órgãos envolvidos. “Essas decisões são muito mastigadas, não é ele (o presidente) que vai tomar essa decisão, passa pelo Congresso, tem debate, tem discussão. Não são medidas do dia para a noite, há um processo”, comentou.

Nesta terça, 12, também depuseram como testemunhas de Lula o ex-ministro da Fazenda na gestão de Fernando Henrique Pedro Malan, além dos ex-ministros da Justiça José Eduardo Cardozo e da Defesa Nelson Jobim. Os dois últimos exerceram os cargos nos governos petistas.

As testemunhas negaram saber de qualquer interferência de Lula no governo de Dilma para viabilizar a MP e o contrato dos caças. “Absolutamente, não, nenhuma (tentativa de Lula). Quero lhe falar algo que eu presenciei: a presidente Dilma tinha uma característica de não permitir ingerência política de quem quer que seja. Reagia muito mal”, disse Cardozo.

Jobim explicou que uma comissão da Aeronáutica entendeu ente 2009 e 2010 que os Gripen eram os modelos que mais atendiam às necessidade do Brasil. Porém, em sua gestão, a Defesa decidiu fazer uma reavaliação sobre o caso, levando em conta a estratégia nacional de defesa, que envolvia questões mais amplas, e indicou os caças franceses Rafale como melhor opção, embora eles fossem mais caros.

Ele explicou que deixou o governo em 2011 e não participou mais de tratativas a respeito, mas que a FAB manteve sua opção original. Jobim contou que, ao assumir o cargo, em 2007, o então presidente Lula lhe deu carta branca para tocar o projeto dos aviões e nunca interferiu nas negociações. “Em momento algum, o presidente fez qualquer tipo de referência sobre esse tema”, disse.

FONTE: O Estado de
COLABOROU: Manuel Flávio

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14 Comments

 

  1. 14/09/2017  18:25 by Ricardo Responder

    Salientando que se a decisão fosse concretizada em 2002 os caças não seriam os do modelo NG, e sim os Gripen C/D.

  2. 14/09/2017  15:35 by Don Corleone Responder

    Se tivéssemos comprado em 2002, eles estariam chegando agora...

  3. 14/09/2017  14:21 by Edson Responder

    Vão ficar discutindo avões dos outros . . . . e se tem algum pontinho pintado de vermelho no aparelho, mesmo que em botões de alerta . . . . não pode ser bolivariano.

  4. 13/09/2017  16:56 by Flanker Responder

    Karl Bonfim, como eu já disse em um comentário anterior aqui nesse mesmo tópico, a negativa de venda dos F-4 ao Brasil ocorreu quando da compra dos Mirage III, e não quando compramos os F-5, o que ocorreu alguns anos depois.

  5. 13/09/2017  10:51 by 100canela Responder

    Ex-presidentes unidos jamais serão detidos

  6. 13/09/2017  10:27 by Karl Bonfim Responder

    A Dilma foi a mais competente de todos, o FHC e o Lula foram os que mais atrapalharam a compra de caças novos para a FAB. Essa é a questão, a burocracia nas compras de equipamentos sensíveis para a segurança nacional já passou da hora de ser revista. Como já foi dito, na década de 70 quando não essa burocracia toda a coisa era mais rápida e direta: se os emericanos não vendiam o F-4, comprava-se o F-5E, um caça bom, bonito e barato que no nosso contexto sulamericano nos servil e serve muito bem e estar ai até hoje. Se os suecos não nos vendiam os seus caças, compramos dos franceses. No tempo do governo presidente João batista de Oliveira Figueiredo, havia um ministério da desburocratização, com o muito competente ministro Hélio Beltrão...

  7. 13/09/2017  10:03 by Karl Bonfim Responder

    De todos a Dilma foi a mais competente, direta, sem rodeios, esse FHC e o nove dedos foram os verdadeiros trapalhões e incompetentes nessa novela que durou décadas que foi a compra de caças novos para a FAB. na década de 70 "não havia politicagem" e o processo de compra era mais rápido, se os americanos não queriam vender o F-4 comprava-se o F-5 (Um excelente caça no contexto sul americano, bom, bonito e barato) que até hoje nos serve como caça principal, Se os suecos não queriam vender seus caças comprava-se dos franceses. Essa é a diferença, essa é a questão: A burocracia é a mãe da corrupção, cria-se dificuldade para "cobrar facilidades". Na época do governo do presidente JOÃO BATISTA FIGUEIREDO, havia até um Ministério da Desburocratização com muito competente ministro Hélio Beltrão.

  8. 13/09/2017  9:57 by Flanker Responder

    Marcio Alves e Gilbert, o Mirage III foi comprado pela FAB em 1970, com o recebimento a partir de 1972. A FAB pretendia o F-4 que foi vetado pelos EUA, mas também analisou outras possibilidades, como o Lightning inglês. Portanto, quando da compra do Mirage III é que ocorreu o veto dos F-4 ao Brasil. Quando da compra dos F-5 (cujos primeiros foram recebidos em 1975), a FAB analisou tambem outros candidatos, como A-4 e Fiat G-91. Os EUA ofereceram também o F-5C (versão do F-5A), mas a FAB rejeitou. Com receio de perder mais uma vez, os EUA ofereceram o F-5E, que foi o mais moderno e capaz daquele certame, tendo sido o escolhido.

  9. 13/09/2017  8:28 by pgusmao Responder

    Ou será que a compra foi evitada, pois a propina seria recebida por outro governo!!

  10. 13/09/2017  0:33 by Fred Responder

    FHC disse que a tendência da Aeronáutica, ao final de seu governo, já era pelos caças suecos e que se não os comprou foi por estar em fim de mandato, deixando o caso para Lula.

    Lula, que é acusado de receber vantagens para fazer Dilma escolher a Grippen teve, portanto, oito anos para fazer isso sozinho e não o fez, mesmo com todos os passos formais dos relatórios da FAB já concluídos – também em favor dos suecos – em seu mandato.

    Aí vem um suposto encontro entre Lula, Dilma e um representante da fabricante dos caças, a Saab, que teria ocorrido nos funerais de Nélson Mandela, onde FHC estava com eles. Encontro? Veja como FHC respondeu ao procurador Herbert Mesquita:

    "O senhor conhece a presidente Dilma? Com ela é rápido. Fazíamos uma conferência no Copacabana Palace, eu falava que estava com pressa. Pegamos o carro, fomos ao Forte do Copacabana, ao Aeroporto do Galeão, pegamos o avião e fomos a Joanesburgo. Ela é cautelosa, não gosta de viagem que trepide muito, ficou conversando com o comandante. Mal dormimos lá. Ela fez um discurso, mal deu tempo de cumprimentar meus companheiros. Foi tudo muito rápido, acho que nem uma refeição foi feita lá.”

    Sobre a Medida Provisória, Fernando Henrique disse que dar incentivos fiscais em troca de instalações é algo que “vem de longe, desde Juscelino Kubitschek”.


    Mas o doutor promotor não se deu por achado: “A questão não é se deveria o Grippen vencer ou não. O que importa é o que Lula fez, um particular que disse que poderia influenciar. Foi desnecessário trazer aqui Fernando Henrique e Pedro Malan ( ex-ministro, que não viu nada de anormal na MP).”

    Defesa, como se sabe, é algo que no Novo Direito Brasileiro não vem ao caso.

    (Fernando Brito)

  11. 12/09/2017  22:58 by Gilbert Responder

    e F-5 em vez dos F4 Phantom que não foram autorizados a venda ao Brasil

  12. 12/09/2017  22:58 by Andre Responder

    Adriano, quem está pagando o preço é o povo brasileiro e a FAB como operadora dos equipamentos, não os citados. Acorda meu! Eles estão pouco se lixando para o que acontece com o Brasil, tanto é que são responsáveis por essa maracutaia.

    Que preocupação é essa com nossos vizinhos? Temos os líderes argentinos que queriam invadir o estado de Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial, temos o cocaleiro que usurpou a Petrobrás e ainda ameaçou o Brasil, temos o ditador Nicolas e já tivemos uma guerra contra o Paraguai. Já que você falou de Caribe, temos também os revolucionários cubanos. Falando em prejuízo Adriano, eles já devolveram o dinheiro do porto de Mariel? Grandes vizinhos! "Mui amigos". Enquanto me preocupo com esse egoísmo dos políticos que afetam o arsenal brasileiro você me vem com essa de prejuízo aos nossos vizinhos? A soberania que você se refere é a mesma soberania que o exército tenta defender com o Sisfron e a própria FAB com os Super Tucanos.

    [em relação diretamente ao tema] E que papo furado é esse de pago por outro governo? Quem paga a conta é o contribuinte seja em que mandato for, não o presidente. O chefe da nação apenas revesa na presidência, mas o cidadão continua pagando os impostos. Além disso o pagamento começa a partir da entrega do último avião. É muita conversa pra boi dormir enquanto nos enrolam com seus interesses políticos.

  13. 12/09/2017  20:49 by Adriano Corrêa Responder

    Estão pagando o preço por terem demorado tanto na decisão! Todos eles... Isto aqui definitivamente não é uma nação com disponibilidade e afinco de soberania.
    Nós somos o maior risco de instabilidade na América do Sul e parte do Caribe. Devido ao nosso peso e tamanho aliado com nossa incapacidade de auto dirigir-se vamos causar muito mal a nós e todos os nossos vizinhos.

  14. 12/09/2017  20:05 by marcio alves Responder

    Eu li uma matéria nos anos 90 que falava que a FAB na década de 80 queria comprar o Saab J-37 Viggen,mais a política sueca da época de não vender armas ao exterior fez a FAB comprar o Mirage III E.

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