A lógica de supermercado do governo

supermercado

Por Oliveiros S. Ferreira

A solução dada ao problema da compra dos novos caças para a FAB deve ser observada num horizonte mais amplo. Cabe ao Comando da Força Aérea perceber que já há quem aponte, discretamente, que o governo gastará bilhões com a compra de equipamento militar enquanto populações civis sofrem e morrem em inundações e secas que se repetem.

Procurando examinar a questão de perspectiva diferente da usual, o primeiro ponto para o qual desejo chamar a atenção é este: o tempo perdido na solução permite reafirmar que a “classe política” (tanto Executivo quanto Legislativo) não presta a mínima atenção aos problemas de Estado. Demorar tantos e tantos anos para decidir uma questão que afeta a defesa do território, das populações e do próprio Estado brasileiros apenas indica, quando não prova, que as questões de governo, às vezes as eleitorais, tiveram e ainda têm prioridade. Para não dizer que a política posta em prática nas últimas décadas – perdidas do ponto de vista estratégico – reforça a tese dos que veem principalmente na política militar dos governos do PT a clara intenção de deixar os problemas de defesa (consequentemente, os das Forças Armadas) em plano secundário.

Um estagiário em informática de uma empresa qualquer que não cuidasse de copiar os arquivos antes de substituir o sistema dos computadores seria sumariamente demitido, pela simples e boa razão de que teria posto em risco toda a documentação arquivada. Observe-se que a decisão sobre a compra dos caças se deu poucos dias antes que os Mirages da FAB realizassem seu último voo. O que permite que se faça um raciocínio simples, partindo de algumas premissas administrativas, nada mais.

Dando aos que procrastinaram o benefício da dúvida – não tiveram a intenção de deixar a FAB de asas… perdão, de mãos abanando -, o mínimo que podemos dizer é que decidiram como quem vai ao supermercado e colhe das prateleiras os produtos que faltam na despensa doméstica. Se não os encontra aqui, ou se estão caros, estarão à venda ali, mais baratos, e bastará cruzar a rua. Ou, na urgência, pedi-los emprestados ao vizinho.

Ao longo das duas décadas perdidas na defesa – é de notar que desde o governo Fernando Henrique há um ministério que legalmente (?) cuida de defender o Brasil – não foi considerada a situação que se criava com a compra, em 2005, de 12 Mirages defasados, desativados pela Armée de L’Air, e com o atraso nas decisões: quem garantiria a defesa do território, das populações, do Estado quando deixassem de voar? A solução foi de “dona de casa”. Decidida a compra dos aviões suecos, de repente, como que acordando de um pesadelo, vemos que os céus estarão vazios contra eventuais inimigos que podem chegar na velocidade Mach 2 pelo menos. Resta tapar o buraco!

É evidente – devem ter pensado – que os suecos não rejeitarão pedido de empréstimo ou aluguel. É de seu interesse emprestar ou alugar. Que assim seja. Por quanto tempo? Por um ou dois anos, até que cheguem os primeiros caças novos, com o título de propriedade em ordem. Farão isso antes que o contrato de compra esteja assinado? Com certeza, pois têm interesse econômico. Assim pensado, assim resolvido e comunicado à imprensa. Geladeira cheia!

Os leigos, acostumados a ir ao supermercado e também a trocar de automóvel quando possível e necessário, terão algumas perguntas a fazer. Os aviões emprestados ou alugados são da mesma geração técnica que os que serão comprados? Tudo indica que não: serão de uma geração anterior. Os pilotos da FAB, os famosos “jaguares”, têm treinamento para pilotá-los? Tudo indica que não!

Quantas horas serão necessárias para que possam voar sem riscos desnecessários? Haverá, no Orçamento, previsão para isso? Ou se apelará a uma mágica orçamentária para que, com algumas horas, com certeza poucas, as minimamente necessárias, os pilotos possam voar? Por quantas semanas o espaço aéreo ficará indefeso?

Os que decidem com a lógica de supermercado aplicada à defesa nacional não se preocuparam com esses pormenores, que, por serem “pormenores”, não têm importância. Se não há previsão orçamentária para treinamento, fechem-se algumas bases, como foi noticiado há dias, e transfira-se a verba para outra rubrica. Se o TCU não permitir manobras contábeis do gênero, recorra-se ao Exército, que deve estar pouco satisfeito por ver que muitos pelotões de fronteira precisam esperar, às vezes, semanas para receber mantimentos e medicamentos porque os aviões da FAB para lá não voam por não terem pistas de pouso em condições.

Há outro elemento na lógica de supermercado: muitas vezes se compra para revender. Quando vamos ao supermercado, temos a certeza de que os fabricantes dos produtos ali vendidos têm o direito de vendê-los porque pagaram o devido pela tecnologia de fabricação, se dela não forem detentores legais. E o que se alardeia é que montaremos os aviões suecos no Brasil – haverá, com certeza, mercado para eles…

O comércio de armamentos é diferente do de comes e bebes: cada produto vem com a cláusula de “destinatário final”. A Embraer tem muito a ensinar a esse respeito: não pôde vender o Super Tucano à Venezuela porque o avião tem componentes norte-americanos. O governo dos EUA proibiu a venda…

Pelo que sabemos, o caça sueco tem componentes norte-americanos – donde se segue que a Suécia deverá obter o “nada obsta” para que o Brasil possa transferir a outros governos esses componentes.

E se Washington disser “não!”?

Os norte-americanos são mais rudes que os franceses, sem dúvida, mas igualmente não gostam de ser passados para trás, ainda mais quando foi seu presidente quem amargou o cancelamento de uma visita de Estado durante a qual, diz-se, o Brasil compraria os F-18. Enfim…

FONTE: O Estado de S.Paulo
*Oliveiros S. Ferreira é professor da USP e da PUC-SP, membro do Gabinete e Oficina de Livre Pensamento Estratégico. 

NOTA DO EDITOR: O titulo original é: Os caças suecos e a lógica de supermercado

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