China deixa de ser um país exportador de armas baratas

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Um relatório do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI) refere a subida da China para quinto maior exportador de armas em 2012. Isso não corresponde aos valores reais dos contratos. O SIPRI calcula os valores financeiros das exportações com base nos dados fornecidos. Esse tipo de cálculos resulta numa subida no ranking dos países em desenvolvimento e numa redução de resultados dos países desenvolvidos.

Por exemplo, um blindado de transporte norte-americano para exportação é na verdade tecnicamente mais complexo e mais caro que um chinês ou russo. Mas no ranking, eles são considerados como iguais, com uma pequena correção devida às diferenças em algumas características técnicas. Se houvesse a possibilidade de obter os dados sobre o real valor comercial dos contratos de exportação, as posições da China e da Rússia, que obteve o segundo lugar, seriam mais modestas.

No entanto, as contas do SIPRI refletem claramente a tendência existente de regresso da China ao grupo dos maiores países exportadores de armas. Não é a primeira vez que isso acontece: nos anos de 1980, a China também era considerada como um grande exportador de armamento. O crescimento da exportação de armamento chinês nos anos de 1980 ocorreu numa situação de profunda crise tecnológica na indústria de defesa da China, que continuava a fabricar sobretudo tecnologia pelos projetos soviéticos dos anos de 1950.

A procura pelo armamento chinês surgiu devido à guerra Irã-Iraque. Os tanques, blindados e sistemas de artilharia chineses eram fornecidos às centenas tanto a Bagdá, como a Teerã. Para os países beligerantes o mais importante era a simplicidade, o baixo preço do material militar e os prazos apertados para a sua entrega. Depois da guerra Irã-Iraque a exportação de armas chinesas enfrentou um longo período de quebra. Ele é explicado, por um lado, pelo baixo nível técnico do armamento chinês, e por outro, pelo aparecimento nos anos de 1990 de um enorme mercado secundário de armamento relativamente moderno dos países do antigo bloco soviético. Isso resultou numa extensão dessa quebra por longos anos.

O crescimento da exportação da indústria de defesa chinesa teve um recomeço nos anos 2000. Até lá, a China conseguiu digerir muitas tecnologias russas e ocidentais recebidas nos anos de 1980 e 1990. O país desenvolveu a produção de vários tipos de helicópteros com base em projetos franceses, três tipos de aviões de caça de quarta geração com o aproveitamento de tecnologias russas e israelenses e vários novos tipos de veículos blindados.

Segundo os dados do SIPRI, 55% da exportação militar chinesa é feita para o Paquistão. Esse mercado ocupa um lugar especial no comércio mundial de armas, visto que a maioria dos grandes fabricantes receia fornecer o seu armamento ao Paquistão para não deteriorar as suas relações com o importador mundial de armas número um – a Índia (12% da importação mundial de armamento, de acordo com o SIPRI). A China, com as suas relações complicadas com a Índia e com a sua aliança de fato com o Paquistão, acaba por ter o monopólio da exportação para o mercado paquistanês.

A China e o Paquistão têm programas de cooperação para os sistemas pesados e dispendiosos de armamento: caças FC-1, armas aéreas telecomandadas, tanques, mísseis antitanque e antiaéreos e navios de guerra. A indústria de defesa chinesa também teve grandes sucessos fora do Paquistão, como por exemplo a exportação de grandes remessas de obuses de 155 mm PLZ-45 para os EAU e para a Arábia Saudita nos anos 2000. Esses contratos são muito importantes porque nos mercados dos países ricos do Golfo Pérsico os produtos de defesa chineses conseguiram vencer os concursos não só graças aos seus preços atrativos, mas também graças aos seus bons indicadores táticos e técnicos.

A China obteve um êxito importante em 2011 no mercado venezuelano ao fechar um contrato de fornecimento de 8 aviões de transporte Y-8C (anteriormente a Venezuela estava a estudar a possibilidade de comprar An-148 russos).

Os artigos mais representativos do armamento chinês exportado atualmente são os aviões de transporte ligeiros Y-12, os de treino e combate K-8, os tanques MBT-2000, os blindados de transporte WZ-551, os carros blindados ligeiros para as forças de segurança, assim como os sistemas de mísseis antiaéreos portáteis.

Um defeito da exportação militar chinesa continua a ser a dependência dos produtos de defesa chineses dos fornecimentos de componentes estrangeiros, sobretudo de motores. Do material aeronáutico oferecido pela China para exportação, os motores russos equipam os caças FC-1 e J-10. Os motores ucranianos são instalados nos aviões de treino e de combate K-8 e L-15. Os helicópteros chineses para exportação recebem motores franceses Turbomeca Arriel 2. O principal tanque que a China exporta, o MBT-2000, usa motores ucranianos. Os componentes eletrônicos, incluindo as ogivas teleguiadas, são fornecidos por uma série de fabricantes estrangeiros para uma série de tipos de mísseis chineses. Essa situação permite aos fornecedores de componentes bloquear a exportação chinesa de armamento de acordo com os seus interesses. A indústria chinesa está trabalhando para ultrapassar essa dependência, mas para isso ainda vai precisar de muitos anos.

À medida que o nível tecnológico do complexo militar-industrial chinês vai aumentando, também os salários estão em rápido crescimento. A China está deixando definitivamente de ser um fornecedor de armamento “simples e barato” para se transformar num grande fornecedor de nível mundial e que terá de conquistar o seu lugar no mercado mundial, não se limitando apenas ao Paquistão.

FONTE: Voz da Rússia

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