Antes de irem ao espaço, recrutas treinam em aviões de guerra dos EUA

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Durante a semana de treinamentos que os mais de 100 recrutas da Axe Apolo Space Academy (AASA) tiveram em Orlando, nos Estados Unidos, duas atividades foram as mais esperadas: a possibilidade de experimentar um ambiente de gravidade zero, durante um voo parabólico em um Boeing, e a chance de voar, e pilotar por alguns minutos, em um Marchetti SF 260, pequeno avião utilizado para exercícios acrobáticos e militares ao redor do mundo.

A primeira experiência, contudo, acabou frustrada para a maioria deles por causa de problemas técnicos na aeronave, que por dois ou três dias ficou “encostada” na oficina, supostamente por problemas no sistema de ar condicionado. Quando o avião ficou pronto, sexta-feira, somente os 23 vencedores do concurso ainda estavam por lá para a realização do voo de gravidade zero.

Já a outra aventura foi completada com sucesso por todos os que concorriam a uma vaga em um passeio suborbital, que deve ocorrer entre o fim do próximo ano e o começo de 2015 e que fará deles astronautas amadores. Ao longo da semana, eles voaram com a equipe do Air Combat USA a partir do aeroporto de Kissimmee, na Flórida, e colecionaram histórias de aventura, adrenalina e também de algumas cenas inusitadas – um deles, durante uma das acrobacias, fez simplesmente o pior que poderia ter feito: agarrou-se no piloto.

O avião é pequeno, os lugares são apertados e você ainda precisa vestir, além do macacão com as insígnias do programa que te faz se sentir como Maverick em Top Gun, uma mochila pesada onde fica seu paraquedas, que os pilotos costumam brincar dizendo que INFELIZMENTE ainda não tiveram a oportunidade de usar, como se desejassem que isso ocorresse justo naquele momento com você, e que se mesmo assim desse tudo errado eles devolveriam o dinheiro.

É tudo brincadeira, claro. Os pilotos que te levam para esse passeio são todos extremamente experientes, muitos com passagens pelas forças armadas americanas, e alguns, inclusive, com participação em guerras – um deles, aliás, veterano da guerra do Vietnã, acabou levando para dar uma volta um competidor desse país (e ambos voltaram realizados).

Antes de tudo, ocorre um briefing de aproximadamente meia hora, quando um dos pilotos explica quais são as manobras que eles pretendem praticar em instantes com dois aviões, o quanto essas são seguras e como se deve puxar o ar quando a força gravitacional for muito forte – respirar normalmente, explica o piloto Russell Campbell, ou Vifa, codinome que usa no trabalho, é difícil nesse momento.

Grosso modo, uma força G de nível 4, que é a experimentada pela maioria dos “caronas” nesses voos, nos faz sentir o corpo quatro vezes mais pesado do que de fato é quando estamos com os pés no chão. No caso desse exercício, isso ocorre durante uma subida quase vertical do Marchetti que culmina com uma descida tão radical quanto que faz com que os tripulantes sintam, por poucos segundos, a ação da força G e, depois, da ausência de peso.

É nesse momento que controlar o ar que entra nos pulmões e forçar pernas e abdome para diminuir o fluxo de sangue que vai para a cabeça podem fazer a diferença entre curtir plenamente a experiência ou sentir algum efeito colateral, como visão em preto e branco ou até mesmo um desmaio. Mas os pilotos também estão preparados para avaliar quando é preciso pegar mais leve, e diminuem a tensão criada pelas manobras se for preciso.

Quem não sentiu nada foi o brasileiro Marco Aurélio Gorrasi, um dos 23 vencedores do projeto AASA, para quem o exercício foi uma dos melhores partes do programa. “Voar num avião de guerra americano de verdade, a sensação de estar com o senso de gravidade 4 G no corpo, sentir a pressão que é estar viajando tão rápido e sentindo aquela pressão da nave indo tão rápido… Nossa!”.

Para Michael Blackstone, ou Maverick, presidente e piloto do grupo Air Combat USA, não há qualquer razão para temer. “Somos todos pilotos experientes, que procuramos fazer aquilo que mais gostamos com a maior segurança possível. Muitos aqui saíram das forças armadas e agora nós estamos aqui para continuar voando, que é a nossa paixão. Somos na verdade crianças que não querem crescer jamais, queremos continuar brincando de voar para sempre”.

Brincando, o Air Combat ainda faz uma série de manobras. “Ele fez várias acrobacias: looping, parafuso, outra tipo um funil que ia descendo (quando o avião desce percorrendo trajeto em espiral, imitando a reentrada na atmosfera da Terra de algumas naves espaciais, como a Atlantis). Foi muito forte, mas foi muito legal”, explica Gorrasi.

Pilotando um avião de guerra

E se isso já não fosse emoção suficiente, os pilotos ainda permitem que o passageiro comande a aeronave por um tempo. “Pilotei um pouco. A gente percebeu que ela é muito sensível. Qualquer pequeno movimento que você faz a nave já desce, sobe ou vira para o lado. Você tem que tomar muito cuidado, mas é uma experiência totalmente inesquecível”, completa o brasileiro, que pode se tornar a segunda pessoa do país a ir ao espaço, caso nenhum outro que tenha pagado pela experiência chegue lá antes.

Depois disso, os dois aviões retornam ao solo para abastecer, pegar mais duas vítimas e começar tudo de novo. Afinal, eles são apenas crianças que não querem parar de brincar de voar.

FONTE: Terra

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