Coluna Mar & Guerra – Futuro Escolta de 6.000 toneladas para a MB

Futuro Escolta de 6.000 toneladas para a MB

 

1 – Introdução

       A Marinha do Brasil (MB), por meio do Plano de Equipamento e Articulação da Marinha (PAEMB), apresentou ao Ministério da Defesa (MD) a necessidade de aquisição de navios escolta de 6.000 toneladas.

       Cumprindo o que determina a Estratégia Nacional de Defesa (END), estes navios serão construídos no Brasil, em estaleiros privados, com total transferência de tecnologia, beneficiando enormemente a indústria nacional e gerando milhares de empregos diretos e indiretos.

       Mas a leitura da mídia especializada em temas de defesa brasileiros nos indica que não foi compreendido o motivo destes navios terem a tonelagem requerida pela MB.

       Este artigo se propõe a discutir o assunto, em uma tentativa de supor o que motivou a Marinha a especificar tal tonelagem. Ressalta-se que o mesmo materializa uma visão do autor e não a posição oficial da MB.

2 – O papel dos navios em uma Marinha

       Em 1974 o Vice-Almirante norte-americano Stanfield Tunner, autor de breve artigo na edição janeiro-março de 1974 do periódico “Naval War College Review” definiu, com precisão, as tarefas que a marinha norte-americana deveria cumprir: Dissuasão Estratégica, Presença Naval, Controle do Mar e Projeção de Poder.

       Estes conceitos foram adotados por todas as marinhas, tendo sido adaptados inclusive pela marinha soviética. Na mesma, foram divididos por tarefas em tempo de paz e tarefas em tempo de guerra. Na primeira, o Almirante Gorshkov agrupou as tarefas de Presença Naval e Dissuasão e, na segunda, as tarefas de “Armada contra Armada” e “Armada Contra a Costa”.

       Na MB as mesmas foram definidas como as 4 Tarefas Básicas do Poder Naval, que são: Controle de Área Marítima, Negação do Uso do Mar ao Inimigo, Projeção de Poder Sobre Terra e Contribuir para a Dissuasão.

       Uma força naval para ser considerada uma MARINHA de fato deve cumprir as 4 Tarefas Básicas do Poder Naval. Caso contrário, tal força poderia ser caracterizada como guarda costeira, prefeitura naval, grupamento marítimo, polícia marítima, ou qualquer outro nome, menos MARINHA.

       Estas atribuições são bem compreendidas pela MB, porém resta saber se esta compreensão plena atinge os nossos governantes, políticos e formadores de opinião.

       Não se pretende, neste artigo, o estudo aprofundado das 4 Tarefas Básicas mas, para melhor compreensão, as três primeiras são definidas da seguinte maneira pela MB:

     a) Controle de Área Marítima: consiste em garantir certo grau de liberdade de utilização, ainda que temporário, sobre certas áreas marítimas, fixas ou móveis, incluindo, como necessário, o controle do espaço aéreo sobrejacente, da superfície e da massa líquida subjacente, exercido na intensidade adequada à realização de tarefas específicas;

     b) Negação do Uso do Mar ao Inimigo: consiste em dificultar o estabelecimento ou a exploração do controle de alguma área marítima por parte do inimigo. É normalmente realizada por quem não tem condições de estabelecer o Controle de Área Marítima (portanto, um Poder Naval mais fraco ante o oponente) ou quando não há interesse em mantê-lo; e

     c) Projeção de Poder Sobre Terra: consiste em realizar ações militares a partir do mar sobre objetivos em terra, como as operações anfíbias e o bombardeio naval ou aeronaval, aí incluindo ataques com mísseis por meios navais ou aeronavais.

       Quanto à quarta tarefa, a mesma é consequência natural da capacitação e da credibilidade em realizar, com efetividade, as demais. Vale lembrar que a tarefa relacionada à Dissuasão exige, entre outras coisas, a aquisição e manutenção de equipamentos no estado da arte, bem como realização de exercícios militares, conjuntos e combinados, e intensivo treinamento do material humano. Sugere-se a leitura do artigo anterior a este, que trata especificamente do tema.

       Em qualquer organização, existem meios que são mais capacitados, senão únicos, para realizarem determinados serviços. Na “organização naval” não é diferente.

       Uma marinha é formada por diferentes tipos de navios, diferentes tipos de submarinos, diferentes tipos de aeronaves, forças anfíbias com características totalmente distintas das forças de terra, etc. E cada meio destes, distintos entre si, são os que cumprem as diferentes Tarefas Básicas do Poder Naval. A uma marinha que disponha de tais meios, que permitem cumprir todas as tarefas citadas, chamamos de Marinha Balanceada.

       As tarefas relativas ao Controle do Mar são cumpridas primordialmente pelos navios de superfície e aeronaves; as que dizem respeito à Negação do Uso do Mar são de domínio dos submarinos; e as de Projeção de Poder Sobre Terra cabem às forças anfíbias, aos navios e aeronaves.

       Então, como podemos ver, os navios de superfície são imprescindíveis para uma marinha exercer o Controle do Mar e Projetar Poder Sobre Terra. Dentre eles, vamos tratar dos Escoltas.

3 – Os Escoltas

       O que são navios escolta?

       Na publicação MD35-G-01, GLOSSÁRIO DAS FORÇAS ARMADAS4ª Edição 2007, o termo é definido como:

       “ESCOLTA – Força Naval ou navio que acompanha, para proteger, um conjunto de navios de guerra ou mercantes, ou navio isolado.”

       Mas esta definição é suficiente, cobre toda a gama de “serviços” prestados por este tipo de navio, presente em todas as marinhas do mundo?

       Não necessariamente.

       Escolta é a denominação genérica dos navios de superfície que, quando em operações no mar, executam a tarefa de proteger, em coberturas cerradas, os navios militares de maior porte e valor estratégico, os navios mercantes que materializam nossas Linhas de Comunicações Marítimas (LCM), as plataformas de petróleo fixas no mar, os terminais petrolíferos e portos vitais para a economia do país, contra ameaças provenientes de meios de superfície, aéreos e submarinos de uma força adversária, bem como realizam apoio de fogo naval.

       São navios versáteis, empregados também na patrulha da Amazônia Azul, com ênfase na fiscalização e proteção das atividades econômicas, principalmente a petrolífera e pesqueira.

       Estes navios atendem as principais diretrizes emanadas da END, em sua página 11, quais sejam:

Diretriz nº. 1:      Dissuadir a concentração de forças hostis nas fronteiras terrestres, nos limites das águas jurisdicionais brasileiras, e impedir-lhes o uso do espaço aéreo nacional.

                             Para dissuadir, é preciso estar preparado para combater. A tecnologia, por mais avançada que seja, jamais será alternativa ao combate. Será sempre instrumento do combate;

Diretriz nº. 2:      Organizar as Forças Armadas sob a égide do trinômio monitoramento/controle, mobilidade e presença; e

Diretriz nº.4:       Desenvolver, lastreado na capacidade de monitorar/controlar, a capacidade de responder prontamente a qualquer ameaça ou agressão: a mobilidade estratégica.

                           Estes navios também atendem aos focos determinados pela END, em sua página 20:

– defesa pró-ativa das plataformas petrolíferas;

– defesa pró-ativa das instalações navais e portuárias, dos arquipélagos e das ilhas oceânicas nas águas jurisdicionais brasileiras;

– prontidão para responder a qualquer ameaça, por Estado ou por forças não convencionais ou criminosas, às vias marítimas de comércio; e

– capacidade de participar de operações internacionais de paz, fora do território e das águas jurisdicionais brasileiras, sob a égide das Nações Unidas ou de organismos multilaterais da região.

       Além disso, a END, em sua página 49, explicita que as Forças Armadas (FA) devem possuir um poder de combate que propicie credibilidade à estratégia da dissuasão.

       Como podemos perceber, os escoltas são um dos mais importantes meios de qualquer marinha.

4 – Uma breve retrospectiva dos escoltas da MB

       Na década de 70 do século passado, a MB possuía como espinha dorsal de seus escoltas Contratorpedeiros (CT) de origem norte-americana, das classes ‘Fletcher’, ‘Allen M. Summer’ e ‘Gearing’.

       A foto abaixo mostra o CT ‘Espírito Santo’, da Classe ‘Allen M. Sumner’ – FRAM II.

       Estes navios possuíam radares de varredura mecânica rotativa; sistemas de armas simples; calculadores totalmente analógicos, onde os operadores tinham que girar manivelas; um convoo pequeno de onde operavam helicópteros WASP totalmente dependentes do controle aéreo de bordo para terem alguma efetividade quando empregados em tarefas A/S.

       Esta situação começou a mudar com a chegada ao Brasil das fragatas classe ‘Niterói’, cuja foto podemos ver abaixo:

       Estes navios trouxeram a MB para a era dos computadores, dos mísseis superfície x superfície, do data-link, levaram a criação do Centro de Apoio a Sistemas Operativos e do Centro de Análise de Sistemas Navais, duas Organizações Militares de primeira linha no apoio aos sistemas embarcados e na área de análise operacional.

       Mas vemos que os navios continuavam com radares de varredura mecânica rotativa, sistemas de mísseis A/A conteiráveis (Sea Cat), um convoo que permitia, mesmo com muita segurança, a operação somente de uma aeronave de pequeno porte orgânica, o Lynx.

       A figura abaixo mostra a classe ‘Niterói’ modernizada no Brasil:

       Trata-se de um navio muito mais capaz, tendo sofrido uma modernização importante em seus sistemas embarcados, com a substituição de radares, instalação do Sistema de Controle Tático (SICONTA) nacional, instalação do Sistema “Albatroz” de mísseis A/A Aspide, instalação do Sistema de Controle de Monitoração da Propulsão e Auxiliares e do Sistema de Controle de Avarias, totalmente nacionais, etc.

       Mas continua a ser um navio com radares de varredura mecânica rotativa, com as ameaças, sejam aeronaves ou mísseis, cada vez mais velozes e necessitando ser acompanhadas em tempo real.

       Os lançadores de mísseis A/A continuam conteiráveis, impedindo que os mesmos sejam disparados em qualquer azimute, criando outra limitação para a defesa do navio.

       O convoo permanece com a limitação já citada, podendo operar helicópteros do porte do Lynx, no momento em que a MB adquire helicópteros de médio porte que devem, prioritariamente, serem operados dos escoltas, pois o pouso e decolagem dos mesmos no Porta-Aviões ‘São Paulo’ interrompe as operações aéreas com aviões.

       A tonelagem atual de nossos escoltas impede que mísseis supersônicos, mais pesados e que exigem mais da superestrutura dos navios, como o Brahmos indiano, possam sequer ser levados em consideração por nossos planejadores.

       Esta situação é análoga para as outras duas classes de escoltas que dotam a MB, as fragatas classe ‘Greenhalgh’ e as corvetas classe ‘Inhaúma’ e ‘Barroso’[1].

5 – A tendência mundial no século XXI

       Neste item vamos entender como duas das “escolas navais” mais importantes da atualidade, a norte-americana e a europeia, lidaram com a questão.

a)    A solução norte-americana

       A foto acima é de um cruzador da classe ‘Ticonderoga’ da marinha norte-americana (USN). Nela podemos ver as antenas fixas do radar phased array AN/SPY-1, parte do sistema de combate AEGIS, que dotam esta classe de navio. Também os destroyers da classe ‘Arleigh Burke’ possuem tal solução.

       Tratam-se de antenas fixas, que transmitem feixes radares nos 360º que seriam cobertos por uma antena de varredura mecânica rotativa, porém permitem a visualização das ameaças em tempo real, sem a perda do “tracking” quando um radar rotativo movimenta sua antena.

       Também podemos observar um convoo que permite a operação de helicópteros de médio porte, com maiores capacidades que um de pequeno porte.

       Mas é importante citar que o navio que deu nome à classe, o ‘Ticonderoga’, e mais os 4 navios que se seguiram ao mesmo, foram todos dados de baixa por não possuírem o sistema de lançamento vertical de mísseis MK-41 e sim o tradicional lançador duplo MK-26, o que limitava sensivelmente sua capacidade de combate.

       Abaixo a foto de um destroyer classe ‘Arleigh Burke’:

       Outros países seguiram a solução da “escola americana”, como o Japão com seus navios da classe ‘Kongo’ e a Coréia do Sul, com seus KDX-III:

E a Espanha, a Noruega e a Austrália, com a classe F-100 construída pela primeira:

 

b)    A solução europeia

       A Europa adotou solução similar à norte-americana, porém com sistemas eletrônicos fabricados por sua indústria.

       Por exemplo, a Alemanha e seus navios classe F-124 (foto abaixo) e F-125 (arte abaixo), onde podemos ver as antenas do radar phased array no mastro principal, muito menores que as utilizadas pela USN:

 

       A Holanda fabricou seus navios da classe ‘De Zeven Provincien’:

       Os britânicos fabricaram seus magníficos T-45:

       A França e a Itália adotaram as classes ‘Horizon’ e FREMM:

           Abaixo, a visualização da típica solução europeia, um navio com antenas phased array no mastro principal, um radar 3D, mísseis A/A de lançamento vertical e convoo com capacidade de operar helicóptero de médio porte:

6 – A MB e seus futuros escoltas

       A MB, cumprindo as determinações contidas na END, apresentou sua necessidade de 30 escoltas, sendo 18 para a 1ª Esquadra, a ser localizada no Rio de Janeiro, e 12 para a 2ª Esquadra, a ser localizada próxima a foz do rio Amazonas.

       Aqui é bom recordar que, historicamente, a MB chegou a possuir 27 escoltas em 1975.

       Observamos, no item anterior, a tendência mundial de construção naval. Assim serão os navios escolta que comporão as marinhas do século XXI e a MB não pode ficar estagnada, vendo aumentar o GAP tecnológico que a separa das marinhas mais desenvolvidas.

       Algo que não foi comentado e que explica a tonelagem requerida pela MB, é que os navios, sejam de uma ou outra “escola”, que aceitam os sistemas descritos e que possuem a menor tonelagem, deslocam 6.000 toneladas.

       Estes navios, com tal deslocamento, serão os que permitirão a MB cumprir as demandas exigidas pelas duas Tarefas Básicas relacionadas com este tipo de meio e as diretrizes e focos exigidos pela END, apresentados anteriormente.

       Desta maneira, podemos supor que foram estes os motivos do requerimento especificado pela MB. A aprovação da construção destes navios no Brasil torna-se urgente ante o envelhecimento de nossos atuais escoltas e a impossibilidade de modernizá-los além do atual patamar.

       O novo escolta da MB terá as características da figura abaixo, obtida de uma palestra da MB disponível na internet[2], em uma antevisão do meio que recolocará nossa Marinha no mesmo patamar das mais evoluídas:

7 – Conclusão

       Neste artigo pudemos entender o papel dos navios em uma marinha, saber quais Tarefas Básicas do Poder Naval os mesmos atendem.

       Vimos o que são escoltas, para que servem, como se enquadram nas diretrizes e focos especificados pela END.

       Fizemos uma retrospectiva, muito simples, dos escoltas na MB desde a década de 70 do século passado.

       Observamos a tendência da construção deste tipo de navio em duas das principais “escolas navais” do mundo, a norte-americana e a europeia.

       E, somando os dados disponíveis, pudemos supor o motivo da MB ter especificado que seu futuro escolta deve ter um deslocamento de cerca de 6.000 toneladas.

       Para terminar, uma vez mais me utilizo da figura do Barão do Rio Branco, um político que tinha plena consciência da importância das Esquadras no apoio à diplomacia:

 


[1] A MB também operou os CT classe “Para” de origem norte-americana. Não vamos citá-los especificamente no artigo por não trazerem maior contribuição ao entendimento do mesmo.

[2] http://pt.scribd.com/doc/93465001/Marinha-do-Brasil-05-Ago-2009-Programa-de-Reaparelhamento-da-Marinha-Apresentacao-para-a-ABIMAQ-e-ABIMDE

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